Desbravando a viola
Constantemente Roberto Corrêa é
considerado o principal teórico
do instrumento, associado a lendas e costumes caipiras
Ranulfo PedreiroAgência EstadoRoberto Corrêa: A música caipira já sofreu várias alterações para tocar no rádio, até diminuiu de tamanho
O sujeito possuía todos os predicados: montava bem, tinha mira certeira, era ótimo dançarino. Mas tocava muito mal a viola e morria de medo de cobra. Como tocar viola é considerado dom de Deus, quem não tem apela para o outro lado. E foi assim que ele chegou, madrugada adentro, numa encruzilhada com uma garrafa de pinga e o instrumento debaixo do braço.
Ali mesmo tratou de invocar o demônio, sob a lua cheia. Chamou de todos os nomes: capiroto, coisa-ruim, cão. E nada. Cada grito era seguido de um farto gole. Já bêbado, começou a ver coisas. Primeiro passou uma vaca, seguida de sete cabritos que tentavam mamar. Aí passou uma cabrita com sete cachorrinhos. Depois uma cadela, com sete gatinhos. Então veio uma gata, com sete galinhos. Em seguida uma galinha, com sete sapos. Quando passou um sapo com sete cobras, o pânico tomou conta do violeiro frustrado.
Como quem protege o caboclo no interior é São Bento, o santo foi invocado com fervor. Mas uma voz trovejante perseguiu o bêbado. Era o próprio diabo chamando o coitado: Vem mulambento. Esse sujeito ficou louco, e passou a viver de esmolas, com a viola na mão sem saber tocar, pois o pacto deu errado, comenta Roberto Corrêa.
Considerado um dos principais teóricos da viola caipira, Roberto Corrêa viajou o País inteiro colhendo técnicas, afinações e causos. Neto de violeiro, Corrêa se interessou primeiramente pelo violão, durante a infância em Campina Verde, Minas Gerais.
Eu estudei com um mestre violonista chamado Zé da Conceição. Quando entrei para a faculdade, em Brasília, havia um corpo de música folclórica e eu me interessei pela viola, comenta. A dedicação ao instrumento superou o interesse pelo curso de Física.
Eu tentei aprender viola, mas não havia nada escrito. Fiz uma proposta para o CNPq e pesquisei o instrumento, viajando pelo País. Aí abandonei o violão. A viola era um mistério, recorda Corrêa. A pesquisa foi convertida no livro Viola Caipira, lançado em 1983.
É um livro teórico, mas que fala sobre todos os acordes principais das cinco principais afinações. No ano que vem pretendo lançar Arte da Viola Caipira, com partituras, tablaturas e um CD com as músicas para aprendizado. Quem não lê música vai poder aprender também, revela.
Não foi fácil para Corrêa descobrir, aos poucos, os meandros de um instrumento tão enraizado nos costumes caipiras: Tinha pouca coisa escrita. Em Portugal me informei bastante sobre violas portuguesas dos séculos 15 e 16. No Brasil visitei vários mestres e fui aprendendo, recebendo informações. Eu já tinha técnica de violão clássico e acabei desenvolvendo um jeito de tocar próprio.
Além das pesquisas, Corrêa estudou muito, cerca de 10 horas por dia. Ao mesmo tempo começou a compor. Não precisou, portanto, recorrer a nenhum pacto demoníaco, comum na história do instrumento. Existem várias lendas. Por exemplo: Você tem que sair à noite e achar uma cobra coral, pegá-la viva e esfregá-la nos dedos, deixar que o bicho se enrole. Mas eu nunca fiz nada disso, confirma.
Quem não for muito chegado a cobras pode ir ao cemitério, na sexta-feira da Paixão, visitar à noite o túmulo de um violeiro famoso. Ali a alma do tocador é invocada, os dedos são esfregados e o dom é transmitido. No pacto com o demônio, é preciso lua cheia e encruzilhada, onde o encontro se dá e o dom é negociado, sabe-se lá a que preço.
Mas o ensino tradicional do instrumento está evoluindo. Eu verifiquei que existem professores de viola em muitas cidades. É um ensino oral, tocam de ouvido. Mas ainda não existe um trabalho de partitura que substitua isso, comenta Corrêa. Alguns violeiros até resumem seu conhecimento em livros, como é o caso de Adelmo Arcoverde, que está para publicar, e do Brás da Viola, que tem um livro e um vídeo para ensino do instrumento. Tem muita gente querendo tocar, se esforçando, assegura.
Se há interesse crescente pela viola, ele não é creditado ao sucesso da música sertaneja - que teria suas origens na música caipira. Eles não utilizam a viola, e se trata de uma música urbana, com elementos de música caipira. Do tradicional eles só mantiveram o formato de duplas, pois arranjos e ritmos foram todos alterados.
Roberto Corrêa afirma também que, com a explosão dessa música, muitas duplas tradicionais pararam de tocar. Agora algumas estão voltando à ativa. Temos grandes violeiros com ótimos trabalhos que estão mantendo a essência da coisa. A música caipira já sofreu várias alterações para tocar no rádio, até diminuiu de tamanho. O formato de dupla veio em função disso, ressalta.
O violeiro lembra que duplas como Zé Mulato e Cassiano, que ganhou o Sharp de música regional neste ano, estão associadas a um aumento do número de compositores e violeiros. Esse desenvolvimento virou tema de uma série de documentários, veiculados pela TV Cultura de São Paulo sob o título Violeiros do Brasil.
Também foram realizados uma série de shows que reuniram nomes como Adelmo Arcoverde, Paulo Freire, Pereira da Viola, Passoca, Renato Andrade, Tavinho Moura, a Orquestra de Viola Caipira de São José dos Campos, Zé Mulato e Cassiano, Zé Coco do Riachão, Ivan Vilela, a Catira Ás de Ouro, a Folia de Reis Alto do Baeta e o próprio Corrêa. Todos eles dividiram o palco entre os dias 5 e 7 deste mês no Sesc Pompéia. Os músicos também estão reunidos no CD Violeiros do Brasil, editado pelo Núcleo Contemporâneo.
Foi um acontecimento. Quando algo tem que acontecer as pessoas mais atentas acabam favorecendo. O Violeiros do Brasil fez um sucesso danado, serviu para todo mundo saber da existência e da força dessa música, argumenta. Entre os projetos de Corrêa está gravar mais um CD solo. Ele já lançou Uróboro e Crisálida. Agora é a vez de Temperança. Será um disco em que apareço como poeta e cantador. Vou interpretar modinhas do século passado, coisas do meu avô. Paralelamente, tenho o trabalho com a Inezita Barroso, que deve ir para o terceiro CD. E a RGE está relançando o álbum Viola Caipira - Um Pequeno Concerto, também gravado por mim. Roberto Corrêa deve se apresentar pela região de Curitiba, mas as datas ainda não estão definidas. O contato para pedido de discos e shows com o violeiro pode ser feito pelo telefax (061) 340-1073.





