DESAFIO Vencendo os medos com esporte radical
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segunda-feira, 16 de junho de 2008
Ana Paula Nascimento<br> Reportagem Local 
Medo de escuro, de barata, de cair da cama, de dormir sozinho, de perder os pais, de ser assaltado, de ser sequestrado, de virar gente grande, de altura, de não passar de ano, de não arranjar namorada, de não ter amigos, de não emagrecer ou de não engordar e até de não perder o medo. A lista é praticamente infinita e cada um sabe aquele medo que aperta mais o coração. E quem pensa que criança não sente medo está enganado. Os medos na infância são muito concretos e estão longe de serem frescura e - quando não são bem trabalhados - deixam de ser superados e viram um peso morto que pode ser carregado pela vida adulta afora.
Pensando nessa questão a Escola Educativa há cinco anos oferece aos seus alunos de 5 a 8 série do Fundamental a disciplina de psicologia aplicada que abre no espaço escolar um momento para arejar as idéias e dar vasão às emoções, inclusive os temores.
Sob a orientação do psicólogo e psicanalista Ailton Bastos, desde fevereiro a 5 série está trabalhando a superação dos medos. Uma vez por semana a turma se reúne para falar dos próprios medos e debater as dúvidas que vão aparecendo. ''Partimos de situações artificiais, simuladas na escola, para fazer um paralelo com situações reais da vida. É um treinamento vivencial'', afirmou Bastos.
Dinâmicas fazem parte desse trabalho e abordam muito a questão do desenvolvimento da confiança no outro, o que ajuda a tornar a convivência em sociedade mais saudável. ''Até uma pirâmide de pessoas chegamos a fazer e para dar certo, para ninguém cair, cada um teve que se concentrar em fazer bem a sua parte. Foi legal'', comentou uma das alunas participantes. A disciplina também inclui o envolvimento dos pais que são motivados a conversar e refletir sobre os próprios medos com os filhos na ação que se chama Escola de Pais.
Como encerramento do projeto, no último dia 7 a turma se reuniu no Grêmio Literário para uma atividade prática de superação. Com equipamentos adequados de segurança, os alunos se prepararam para uma prova de fogo. Percorrer um circuito de arvorismo com diversos desafios que exigem força, concentração e agilidade.
Sempre ligados à ''linha da vida'' - nome que se dá ao cabo de aço onde são presos os ganchos de auto-segurança -, as crianças têm a oportunidade de ''andar nas nuvens'' e, já de cara, enfrentar o medo de altura, que dependendo do exercício, varia de 7 a 12 metros. Matheus Ernst Martins, 10 anos, foi o primeiro a aceitar o desafio. Cheio de adrenalina, rapidamente subiu a escada de cordas.
O circuito de arvorismo do Grêmio tem 17 estações, totalizando o percurso de 240 metros. Em cada estação, uma modalidade diferente de exercício. Tem a ponte de três cordas, os tambores suspensos, a ponte de pneus, o ziguezague, entre outros. Além de monitores, a atividade é acompanhada por um técnico responsável e um socorrista - eles fazem parte da empresa Desafio e Superação, que terceiriza o esporte no local.
Durante a atividade era possível perceber o esforço físico de cada criança. Quando perdiam o equilíbrio, tinham a certeza que não despencariam por estarem conectados ao cabo de aço que aguenta até 800 quilos. A paciência também precisou ser trabalhada enquanto aguardavam a ajuda dos experientes monitores que os ajudavam a ficar em pé. Outras vezes a solidariedade do colega que vinha logo atrás já era suficiente para fazer com que o amigo voltasse a ter domínio sobre o exercício.
No final, a estação mais esperada era a tirolesa. Suspensa em dois cabos de aço (que suportam cada um 6.500 quilos), cada criança podia percorrer rapidamente 200 metros sobre o lago do clube. Adrenalina pura. Um dos primeiros a completar a maratona de atividades, Thiago de Oliveira tinha estampada no rosto a satisfação de conseguir enfrentar mais um desafio. ''Foi muito legal, mas fiquei com medo de cair no lago, mesmo sabendo nadar. Sei lá, podia ter uma piranha ou um peixe grande aí'', brincou.
O trabalho desenvolvido dentro da disciplina de psicologia aplicada também envolve temas relacionados ao empreendedorismo. ''Lançamos desafios em que os alunos precisam encontrar a solução. O envolvimento deles é grande e incentivados dessa forma rendem muito mais. Trabalham a autonomia e persistência'', comentou o psicanalista Bastos.
''Na verdade, estamos treinando eles para o futuro. Não sabemos a realidade que encontrarão daqui a 15 anos, quando serão jovens inseridos no mercado de trabalho, e eles precisam estar acostumados a descobrir as soluções para os desafios que a vida vai colocando'', acrescentou Bastos.
Com relação ao medo, Bastos ressalta que esse sentimento em si não é ruim: ''É um sentimento de autopreservação. Quando ele causa um prejuízo social e emocional vira um problema. É necessário que ele seja controlado e vencido''.


