O início do século foi palco de uma verdadeira febre de explorações aos pólos gelados do planeta. Essas regiões despertavam um verdadeiro fascínio, como um território que precisava desesperadamente ser tocado pelas mãos humanas. A Antártida era o paraíso dos exploradores.
Uma dessas explorações, chefiada pelo inglês Ernest Henry Shackleton a bordo do navio Endurance, entrou para a história como um espécie de lenda. Realizada entre os anos de 1914 e 1916, é considerada o ponto final da chamada Era Heróica da exploração polar.
Quando o explorador Ernest Shackleton deixou a Inglaterra, em 1914, com destino à Antártida, sua meta era ser o primeiro homem a atravessar a pé o continente gelado. A bordo do navio Endurance, com uma equipe de 28 pessoas, Shackleton zarpou um dia antes do estopim de Primeira Guerra Mundial ser aceso.
Embora longe da guerra, o explorador e sua equipe teriam que enfrentar uma outra batalha, a da sobrevivência no deserto gelado. A intenção era aportar em solo antártico no verão e, com auxílio de trenós puxados por cães, atravessar o continente percorrendo 25 quilômetros por dia. Mas a natureza não levou em conta a expedição e seguiu caminho próprio.
Pouco antes de aportar em solo antártico, o navio Endurence foi aprisionado no gelo e passou a seguir à deriva aos caprichos do tempo. Durante 10 meses a tripulação esperou em vão pelo liberdade do navio. Após esse longo período, o Endurence foi esmagado pelo pressão do gelo, vindo a naufragar.
A tripulação foi obrigada a abandonar o navio e seguir a pé, com comida racionada, em busca de resgate. Numa época em que tecnologia para tais expedições eram básicas, Shackleton e sua equipe passaram a contar apenas com a inteligência e a determinação para não morrer. Uma verdadeira batalha teve início pela sobrevivência, um guerra que duraria mais de um ano.
A saga da expedição de Shackleton foi retratada em vários livros, mas chega agora às livrarias uma obra diferencial. De autoria da norte-americana Caroline Alexander, ‘‘Endurance - A Lendária Expedição de Shackleton à Antártida’’ traz 140 fotografias, grande parte inéditas, do fotógrafo Frank Hurley, um dos membros da expedição.
O livro é uma extensão da exposição ‘‘Endurance: A Lendária Expedição de Shackleton’’, aberta no mês passado no Museu de História Natural de Nova York e da qual Caroline Alexander é curadora. Os negativos foram resgatados e ampliados especialmente para o evento. As imagens de Frank Hurley registram tanto as belezas da paisagem antártica como o cotidiano da expedição. Oferecem uma real dimensão da heróica tentativa de cruzar a Antártida e a crua tentativa de sobrevivência.
Grande parte das fotografias tiradas por Frank Hurley tiveram que ser abandonadas no gelo antártico. Precisando reduzir a carga para a caminhada em busca de resgate, o fotógrafo separou parte dos negativos e jogou dois terços fora. Os negativos, a grande maioria em chapa de vidro, foram conservados dentro de latas com tampas soldadas.
Ao final, expedição de teve um final feliz, nenhum homem morreu, todos foram resgatados - apenas um precisou amputar os dedos dos pés. Até hoje a façanha de Shackleton parece inacreditável, viver de maneira totalmente precária durante mais e um ano se arrastado pelo gelo em busca de socorro.
• Endurence de Caroline Alexander, fotografias de Frank Hurley, Editora Companhia das Letras, 244 páginas, R$ 52,00.

mockup