Curitiba - Na definição do diretor Fábio Barreto, Jacobina era uma mulher extremamente sensual, que queria ser amada, mas não sabia administrar os prazeres da carne. A história da líder religiosa que esteve à frente da revolta dos Mucker ou ''falsos santos'', em 1874, inspirou o diretor do concorrente ao Oscar ''Quatrilho'' (1995) no seu mais recente filme ''A Paixão de Jacobina''. O longa estréia hoje nas salas de cinema do Paraná e São Paulo. Traz Letícia Spiller no papel título, além de Thiago Lacerda, Alexandre Paternost, Caco Ciocler, Antônio Calloni, Leon Góes Felipe Camargo integrando o elenco.
Lançado no Festival de Gramado, em agosto, o filme é baseado no livro ''Videiras de Cristal'' do escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil. ''Na verdade é apenas livremente inspirado no livro'', esclareceu Barreto ontem, por telefone, à Folha. ''As linguagens são diferentes. Se fôssemos seguir o livro, poderíamos fazer mais dez filmes'', analisa, ressaltando que a literatura mexe com o imaginário, com o inconsciente das pessoas. ''No cinema, ao contrário, há o desafio de dar credibilidade às cenas concebidas.''
Esse desafio, aliás, foi a maior preocupação do diretor durante as oito semanas de filmagens do longa, no Rio Grande do Sul. ''As cenas de batalha foram as mais complicadas, já que envolveu muita gente e foi necessário refilmar várias vezes'', revela. Mas não atribui ao desafio, um obstáculo capaz de atrpalhar o andamento do filme de época. ''Fazer cinema é sempre difícil no Brasil por conta dos recursos, o resto é tranquilo'', ameniza.
''A Paixão de Jacobina'' consumiu orçamento de R$ 8,5 milhões. A produção contou com o trabalho de 156 personagens, 2,5 mil figurantes e 103 técnicos. As filmagens foram realizadas nos principais centros da colônia alemã no Brasil Vale dos Sinos e Vale do Taquari onde a história de Jacobina aconteceu.
Para reconstruir a narrativa de uma povo marcado pelos efeitos da Guerra do Paraguai, Barreto escolheu a atriz Letícia Spiller para interpretar a líder religiosa que muda o rumo das pessoas. ''Trabalhar com a Letícia foi maravilhoso, ela é uma atriz disciplinada e séria'', opina o diretor, revelando que não hesitaria em trabalhar novamente com a atriz.
Mas por enquanto, Barreto concentra-se na divulgação do filme. O roteiro é assinado por Leopoldo Ferran e teve colaboração de José Almino Arraes e Ana Maria Miranda e revisão final de Marcelo Santiago e o próprio Barreto.
Jacobina era uma figura ''um tanto desequilibrada'' na opinião do diretor. Desde criança, ela sofria desmaios e mergulhava em sonos profundos. Na festa de casamento de seu primo Franz (Thiago Lacerda), ela tem mais um desmaio. O médico da comunidade, Dr. Hillebrandt (Werner Schunemann) assegura que a moça não sofre de doença grave, mas Jacobina é levada pela mãe (Thereza Mascarenhas), ao curandeiro João Maurer (Alexandre Paternost), que se apaixona pela jovem e lhe pede em casamento.
Após o nascimento da filha Catarina, Jacobina tem visões e recebe mensagens que acredita serem de Jesus Cristo. Ela procura o Pastor Boeber (Antônio Calloni) de orientação luterana, que lhe aconselha a cuidar da família.
Após um reencontro apaixonado e perturbador com Franz, Jacobina passa a cuidar de pobres e desvalidos. Realiza seu primeiro ''milagre'' em um soldado da Guerra do Paraguai, Robinson (Felipe Kannemberg), que se transforma em fiel e também violento defensor. Entre os seguidores, está ainda Jacó-Mula (Leon Góes), com problemas mentais e maior adorador de Jacobina que, a esta altura, passa a vestir bata e usar uma coroa de flores.
A comunidade de místicos de Jacobina vive em crescente estado de transe físico e espiritual, à beira do fanatismo sobretudo porque, graças a poderes mediúnicos, Jacobina incorpora Jesus Cristo e reproduz em suas pregações palavras do Evangelho. Depois de sucessivos acontecimentos marcantes, Jacobina é levada ao juiz de província em São Leopoldo. Irritado com a atitude mística da ré, o juiz obriga Jacobina a vestir roupas decentes, manda cortarem-lhe os cabelos e ordena sua internação na Santa Casa de Porto Alegre.
No dia de Pentecostes, um meteoro cruza os céus e cai nas terras dos Mucker. Os conflitos locais entre os Mucker e os moradores da cidade se acirram. Jacobina é libertada e retorna triunfalmente para seus seguidores. Dá-se início a um controvertido combate que culmina com a morte de milhares de pessoas.
A narrativa, na opinião de Barreto, é extremamente convincente, o que o faz esperar outubro chegar com ansiedade, já que nessa época são escolhidos os filmes para serem indicados ao Oscar. ''Os concorrentes brasileiros são fortes, como o ''Cidade de Deus'' (de Fernando Meirelles, em cartaz no cinemas), mas posso torcer''. Em Curitiba, o filme entra em cartaz nas principais salas de cinema (ver roteiro).

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