Desafio de 'Vale Tudo' é atualizar enredo para o Brasil de hoje
Remake que estreia nesta segunda-feira (31) na Globo traz revisões de comportamentos, mas o País não mudou muito sob certos aspectos
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segunda-feira, 31 de março de 2025
Remake que estreia nesta segunda-feira (31) na Globo traz revisões de comportamentos, mas o País não mudou muito sob certos aspectos
Pedro Martins/ Folhapress 

A personagem Odete Roitmann não amedronta só seus filhos em "Vale Tudo", novela cujo remake estreia nesta segunda-feira (31), na Rede Globo. A personagem também é motivo de inquietação de Debora Bloch, que assume o papel imortalizado por Beatriz Segall, e Manuela Dias, encarregada de reescrever o clássico de Gilberto Braga - centrado no embate entre uma mãe e uma filha, Raquel e Maria de Fátima, papéis de Taís Araujo e Bella Campos. No fundo, é uma reflexão sobre se vale a pena ser honesto num país como o Brasil.
Será que, quase quatro décadas depois da estreia da versão original, o público ainda tem tolerância suficiente ao politicamente incorreto para assistir à vilã bilionária destilar ódio ao Brasil, à língua portuguesa e aos mais pobres em seu francês e italiano irretocáveis?
Bloch não arrisca palpites sobre a recepção dos espectadores, mas afirma que sua interpretação não perderá a essência da personagem, marcada na versão original por frases como "o Brasil é uma mistura de raças que não deu certo", "falar de Nordeste antes do jantar me faz perder o apetite" e "a solução para a violência é a pena de morte".
"Ela fala barbaridades politicamente incorretíssimas, mas que não parecem tão estranhas, porque a gente ainda vê as pessoas falando essas coisas", afirma a atriz.
Um dos principais desafios do remake, dizem os produtores, é encontrar um equilíbrio entre corresponder ao saudosismo de parte dos espectadores - que esperam encontrar quase uma reencenação da original, com pouca ou nenhuma mudança, mas em alta definição - e confrontar esses fãs, atualizando as tramas ultrapassadas.
Mas o arquétipo da megera, encarnado por Odete, é um dos elementos que pouco mudou, diz Bloch. A atriz vê a personagem como uma "representação de um pensamento atrasado, conservador, de extrema direita, e que ainda está por aí" e pode ser visto, diz ela, em figuras como Elon Musk, lembrando o gesto que o empresário fez na posse do presidente americano Donald Trump e lembrou para parte do público aquele que era feito por apoiadores de Adolf Hitler.
90 CAPÍTULOS ESCRITOS
Manuela Dias, que tem em sua trajetória sucessos como "Amor de Mãe", "Justiça" e "Ligações Perigosas", conta que já escreveu 90 capítulos - mais da metade da novela -, e os atores já trabalham nas gravações de cenas que vão ao ar só no final de abril - caso da própria chegada da vilã, prevista para o 25º capítulo.
A autora, no entanto, pode fazer mudanças conforme a reação do público, o que é praxe nas novelas, obras abertas por natureza. Se "Vale Tudo" era um retrato das vísceras do Brasil, é natural que, ao produzir um remake, Dias sinta necessidade de atualizações.
No Brasil de hoje é provável que personagens como Marco Aurélio, papel de Alexandre Nero, ainda impactem o público - na versão original do folhetim, ele rouba milhões da TCA, a multinacional de aviação de Odete Roitman, sua sogra, e foge impune do país, dando uma banana ao espectador, com a mão apoiada na dobra do antebraço oposto.
AUTORA É OTIMISTA
Manuela Dias é avessa a dar "spoilers", mas se considera uma "otimista inconteste" e diz que sua visão de mundo é ancorada em pesquisas. Lembra, por exemplo, que apesar de não ser raro ouvir alguém clamando pela pena de morte como Odete - em 2018, essas pessoas formavam 57% da população, segundo o Datafolha -, o país não é armamentista - em 2022, 70% dos brasileiros se diziam contra facilitar o acesso às armas, ainda segundo o instituto de pesquisa.
É a partir dessa percepção, afirma o diretor artístico da novela, Paulo Silvestrini, que boa parte das mudanças foram feitas. Exemplo disso é o casal formado por Laís e Cecília, irmã de Marco Aurélio. Elas deram vida àquele que é tido como o primeiro casal entre duas mulheres numa telenovela, mas tiveram várias cenas vetadas pela Censura Federal, que só deixou de existir em outubro de 1988, quase cinco meses depois da estreia da novela.
RACISMO ONTEM E HOJE
O elemento racial também será diferente. Se a versão original tinha apenas dois personagens negros - uma criança pobre com vício em furto e uma empregada doméstica -, desta vez negros também estarão espalhados por outros papéis, inclusive nos de protagonismo.
Bella Campos, no papel de Maria de Fátima, diz que isso traz mais realismo para a história. "A novela tinha dois personagens negros, estereotipados, e se dizia o espelho do Brasil, mas a gente sabe que a maioria da população é negra."
Sua afirmação encontra eco na de Taís Araujo. "Você tem a Raquel, que é uma mulher negra e que está no corre, na base da pirâmide, e Odete, que é uma mulher branca e está no topo da pirâmide. Eu ser uma mulher negra traz toda uma diferença, porque o jeito que o Brasil encara uma mulher negra é diferente", afirma. "Mas não é uma outra novela. A gente não renega o que foi feito. A gente celebra. Às vezes eu chamo a Maria de Fátima como a Regina Duarte chamava, por exemplo."
O ALCOOLISMO DE HELENINHA
Outra grande mudança gira em torno de Helena Roitman, interpretada por Paolla Oliveira, que se preparou para o papel visitando reuniões de Alcoólicos Anônimos. "Quando a Heleninha passar dos limites, em vez de rir, talvez o espectador queira acolher essa mulher. Pode ser engraçado, pode tocar o mambo, a gente pode rir, mas vai ser doloroso não só para ela, mas para os espectadores também", diz a atriz.
Mas há, segundo a autora, muita coisa que foi mantida, a começar pela abertura, com "Brasil", composição de Cazuza na voz de Gal Costa, e bordões como o "não transo violência", de César Ribeiro, agora na pele de Cauã Reymond. "Abandonar algumas coisas seria como refazer 'E.T. - O Extraterrestre' e não ter a cena dele cruzando a lua", ela afirma.


