Depois do sucesso em BH, "Partido" faz temporada relâmpago em SP
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segunda-feira, 12 de julho de 1999
Por Beth Népoli 
São Paulo, 13 (AE) - A temporada é relâmpago, mas o espetáculo é para ser saboreado com gosto e calma, como um bom quitute mineiro. "Partido", com o grupo mineiro Galpão, sob direção de Cacá Carvalho, estréia amanhã (14) no Sesc Pompéia, em São Paulo. Adaptação livre da novela "O Visconde Partido ao Meio", de Ítalo Calvino, a peça fica só até domingo em São Paulo, com a vantagem de ter uma sessão extra quinta-feira às 16 horas, uma boa pedida para quem prefere curtir o frio da noite em casa.
A química entre o Galpão e Cacá parece ter sido perfeita em "Partido", que estreou em maio em Belo Horizonte com casa lotada durante toda a temporada, o que obrigou o grupo a fazer várias sessões extras. A peça conta a história do visconde Medardo de Terralba, um jovem corajoso que decide viver a experiência de uma guerra, mas em meio a uma batalha é atingido no peito por um tiro de canhão que o parte ao meio.
Dividido ele volta para sua terra natal. Porém a população da cidade logo descobre que só uma de suas partes voltou, a que eles consideram a parte má. "Na nossa concepção, ele só é mau do ponto de vista dos outros", diz Cacá. "Ele mata sua ama, por exemplo, mas na verdade ele está queimando uma etapa de sua infância". Para confundir ainda mais a população, chega logo depois sua parte boa. E de novo todos ficam sobressaltados, pois essa parte age de uma forma insurportavelmente boa. Ou seja, o visconde é inteiramente cada uma de suas metades.
"A peça fala de um personagem que busca o equilíbrio", diz Cacá. E, ao fim, ele acha esse equilíbrio? "O dia em que isso ocorrer com um homem é porque ele está morto", argumenta o diretor."Todos nós somos partidos e a busca do equilíbrio interno deve ser permanente". Segundo Cacá, o espetáculo leva-nos a pensar na necessidade de estarmos atentos. Basta nos distrairmos um pouco e a "inteireza" toma conta da gente, sempre com consequências ruins.
A reflexão no palco está longe de resultar num espetáculo de tese, mas sim numa bela fábula, contada a partir do cenário de Márcio Medina, todo em papel, que remete a um livro, "inteiro no início da história", que vai desdobrando-se em páginas, capítulos, ou seja, em partes. Inteiro, no palco, só o visconde. Cada um dos dez atores em cena está dividido, desde os figurinos, um para cada lado do ator. Desta forma, um mesmo ator é um pai severo e equilibrado do lado direito e do esquerdo é um fanático religioso. E assim o elenco desdobra-se entre uma pata e uma mulher ou uma mulher católica e uma criança ou ainda um cavalo e um operário. Como numa fábula tudo é possível, todos eles na verdade podem ser reconhecíveis como as várias facetas do mesmo animal-homem.
Em todo o processo, o mais difícil para o diretor e o elenco foi achar uma chave para traduzir cenicamente um homem partido ao meio. Depois de quase um ano de tentativas, surgiu a idéia de partir todo o elenco e deixar unicamente o visconde inteiro. Parece óbvio, afinal ele é inteiramente sua metade. Mas como o ovo de Colombo, foi difícil chegar lá. "Depois de achada a chave, toda a concepção fluiu". Claro que essa chave exigiu um trabalho de corpo e voz diferenciados. "Os atores do Galpão são preparadíssimos, é um grupo genial e foi uma experiência enriquecedora trabalhar com eles". Serviço - "Partido". Direção de Cacá Carvalho. Com o Grupo Galpão. De amanhã (14) a sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 10,00. Teatro do Sesc Pompéia. Rua Clélia, 93, tel. 3871-7777.


