Depois de Veneza, "São Jerônimo" será apresentado no Vaticano
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quinta-feira, 29 de julho de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
Rio, 30 (AE) - Depois da apresentação no Festival de Veneza, o longa-metragem "São Jerônimo", de Julio Bressane, deverá ser apresentado no Vaticano. Foi o que informou o diretor à reportagem, em entrevista hoje no Rio. "O diretor da mostra veneziana, Alberto Barbera, me falou que foi procurado por um representante do órgão de imprensa do Vaticano, o "Osservatore Romano", confirmando o interesse da Igreja pelo filme", disse.
"São Jerônimo" é resultado de um olhar de vanguarda sobre uma figura carismática da história católica. Everaldo Pontes faz o personagem que vive no deserto (na verdade, o sertão nordestino) e se prepara, por uma vida de expiação, para a monumental tradução dos textos sagrados, a "Vulgata". Segundo Bressane, seu interesse por Jerônimo vem do fato de ele ter sido um homem da cultura. Traduzindo do grego, do hebraico e do aramaico para o latim, teria funcionado como catalisador cultural do século 4.º, tranformando o texto sagrado em ponto de convergência entre os povos.
O interesse histórico de Bressane não pára na vida de São Jerônimo. Já tem engatado um novo projeto que, desta vez, terá por personagem a rainha do Egito, Cleópatra. O diretor informou que viaja para a Europa uma semana antes do Festival de Veneza. Fica em Paris, onde vai conversar com um produtor egípcio, que deverá entrar no projeto. "Já está tudo praticamente acertado, mas não posso ainda revelar o nome desse produtor, aliás uma figura bem conhecida do público brasileiro"
diz. O filme será rodado em Luxor, no Egito, "um cenário natural, incrível, em que todo o ambiente dramático para a história já chega pronto".
Voltando a falar do Festival de Veneza, o diretor reafirmou que não acreditava mesmo na seleção do seu trabalho. E isso por um motivo prático: o custo do seu filme. "São Jerônimo teve orçamento de US$ 150 mil, o que não existe no cinema de hoje", disse. Para Bressane, hoje o cinema mundial se traduz quase exclusivamente em termos de cifras. Nem mesmo Veneza, que pretende tomar um caminho alternativo em relação aos outros grandes festivais, escaparia a essa sina. "Vão abrir o evento com o filme do Kubrick, que deve ter custado pelo menos US$ 40 milhões", diz. Conciliação - De fato, nenhum dos grandes festivais se dá ao luxo de ser completamente alternativo. Veneza pode ter mostrado tendência "menos comercial" em sua seleção e nas propostas. Mesmo assim, por uma questão de mídia (ou seja, de estratégia comercial), não dispensa o glamour, ingreditente sempre associado à atividade cinematográfica. Por esse motivo, já está confirmada a presença de um robusto time de estrelas no Lido: Tom Cruise e Nicole Kidman, que apresentam o esperado "Eyes Wide Shut", de Stanley Kubrick, na abertura da mostra. E mais: Antonio Banderas, Sean Penn, Harvey Keitel, Isabelle Huppert, Michael Caine, Melanie Griffith, Dennis Hopper, Emmanuelle Seigner, Francesca Neri, Meryl Streep, Angela Bassett, Cameron Diaz, John Malkovitch, entre outros.
Muito bonito. Mas, depois de tudo, são os filmes que ficam. E, certamente, haverá muita novidade este ano em Veneza. Ao lado de diretores desconhecidos, figuram os já consagrados, como o iraniano Abbas Kiarostami, que se apresenta este ano com um título poético, "O Vento nos Levará". Sempre se pode esperar o máximo desse que é um dos grandes artistas contemporâneos.


