Depois de ser exibido na Suíça, "Dois Córregos" estréia em SP
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quarta-feira, 25 de agosto de 1999
Por Luiz Carlos Merten 
São Paulo, 26 (AE) - Carlos Reichenbach ainda se lembra com emoção do dia em que "Dois Córregos" foi exibido no Festival de Locarno, na Suíça. Foi na sexta-feira, dia 13, às 16 horas. "O filme foi exibido num estádio adaptado para ser sala de cinema; eram esperadas 2 mil pessoas, apareceram 3 mil". Ele confessa que viveu momentos angustiantes. "No dia anterior, a Asia Argento, filha do diretor Dario Argento, mostrou o curta dela; Asia é um mito do atual cinema italiano e foi vaiada".
Se ele temia uma vaia, recebeu, em troca, um generoso aplauso. "As pessoas aplaudiam e saíam; ficaram umas 2 mil; aí me chamaram lá em cima e eu fui aplaudido de pé". "Dois Córregos" estréia hoje em São Paulo. Reichenbach, mais conhecido como Carlão, não espera que o filme seja aplaudido no fim das sessões, mas gostaria de tocar as pessoas. "É um filme sobre sentimentos, ambientado num contexto político", define. O ano é 1969, para que o diretor possa incorporar ao relato as consequências do AI-5, durante a ditadura militar.
O personagem de Carlos Alberto Riccelli é um homem que vive clandestino no País. Integrou a luta armada. Está na casa da irmã, no interior, onde se hospedam a sobrinha e a amiga, filha de um militar influente. Há um quarto personagem importante, a caseira interpretada por Ingra Liberato. E um quinto: o militar casado com quem essa última se relaciona. Tudo filtrado pelas memórias da personagem de Beth Goulart, que quando o filme começa está retomando a posse da casa em que se desenrola a trama. Ela lembra a garota que foi e o mistério que o tio exercia sobre ela. Alma - "Dois Córregos" começou a tomar forma quando Carlão foi filmar "Alma Corsária" naquela cidade do sul do Estado. Cineasta paulistano nascido em Porto Alegre, ele virou dois-correguense de coração. Seu projeto seguinte era um filme chamado "As Mulheres e as Garças". Revelou-se uma produção problemática: cara, com atrizes européias e um monte de investimento em efeitos e maquiagem. Carlão desenvolveu então o roteiro de "Dois Córregos" para filmar na cidade.
Foi um ano de levantamento da produção, sete semanas de rodagem e nove meses de montagem e finalização. Quase dois anos da vida de Carlão, que se inspirou, mesmo que livremente, em fatos reais. O personagem de Riccelli é seu padrinho, que viveu clandestino em sua casa, quando ele morava não em "Dois Córregos", mas perto da represa Billings, em 1965. Embora evoque os anos de chumbo da ditadura militar, em nenhum momento ele pretendeu fazer um filme político.
Por isso não aceita bem uma crítica que se faz a "Dois Córregos": a de que o filme, muito bonito e bem-feito, dilui a política nos sentimentos. Seu modelo assumido era o cinema de sentimentos do mestre italiano Valerio Zurlini, a quem Carlão devota uma admiração sem limites. "Seus filmes foram todos exibidos em Locarno há alguns anos, em cópias novas". Desde então, ele tenta convencer Leon Cakoff a trazer a retrospectiva de Zurlini para a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
"A Moça com a Valisa" e, principalmente, "A Primeira Noite de Tranquilidade" foram os modelos inspiradores de "Dois Córregos", embora o título, além de evocar a cidade, faça referência explícita a outro clássico de Zurlini: "Dois Destinos", que foi como se chamou, no Brasil, o sublime "Cronaca Familiare", adaptado do romance de Vasco Pratolini.
Carlão define Zurlini como um cineasta de lastro "dostoievskiano". Cita uma frase do autor, segundo a qual toda história íntima ou sentimental só se torna grande quando desenrolada num momento histórico importante. O próprio Zurlini ambientou outra de suas obras-primas intimistas, Verão Violento, no quadro da 2.ª Guerra. Carlão queria filmar com o ator argentino Dario Grandinetti, dos filmes de Eliseu Subiela.
Terminou fazendo o filme com Riccelli. Só tem elogios para o ator, que, em conversa com a reportagem, retribui dizendo que havia muito admirava o cinema de Carlão. Riccelli também se inspirou em pessoas que conheceu para criar o personagem, em especial um amigo baiano que aderiu à guerrilha. "Um sujeito doce, incapaz de fazer mal a ninguém, mas que partiu para a luta por idealismo, porque queria construir um mundo melhor".
Emoção tão grande como a de mostrar "Dois Córregos" em Locarno só a de exibir o filme no próprio local da filmagem. Foi no fim de semana. Havia 9 mil pessoas, 7 mil de pé, no cinema ao ar livre armado em Dois Córregos. Haja coração para aguentar tanta emoção.


