Depois da polêmica em Cannes, "O Verão de Sam" estréia no Brasil
São Paulo, 24 (AE) - Nenhum outro filme provocou tanta discussão no Festival de Cannes do ano passado quanto "O Verão de Sam". Spike Lee resolveu contar a história de David Berkowitz, o serial killer cujos crimes provocaram verdadeiro pandemônio em Nova York, no verão de 1977. Berkowitz matava mulheres e escrevia cartas para o "The New York Times" relatando seus feitos. Assinava-as como Filho de Sam. Era o nome do cachorro de seu vizinho, aquele que na explicação alucinada do criminoso induzia-o a cometer atos de violência. "O Verão de Sam" estréia amanhã (25) na cidade. Deve prosseguir no Brasil a polêmica que, após Cannes, cercou seu lançamento nos Estados Unidos. Os críticos de lá caíram matando. Acham que é o pior filme de Lee. Não se deixe influenciar e vá ver.
Em obras como "O Silêncio dos Inocentes" e "Seven, os Sete Crimes Capitais", Jonathan Demme e David Fincher fizeram psicanálises selvagens da América. Em "Henry, o Retrato de um Assassino", Jim McNaughton assumiu o desafio de mostrar o que se passa na cabeça de um assassino. "O Verão de Sam" tem em comum com todos esses filmes a figura do serial killer, mas a intenção de Lee é outra. Em Cannes e nos Estados Unidos ele foi acusado de querer glorificar um criminoso. Não é verdade. Mas sua intenção também nunca foi entrar na mente do assassino, explicando ou justificando suas ações. Lee quis fazer um retrato de época. Recorre a um grupo de personagens ítalo-americanos para expressar na tela a paranóia que assolou Nova York naquele verão. A comunidade italiana, por sinal, reclamou do diretor, achando-se mal representada por aqueles homens machistas e mulheres submissas. Foi um verão excepcionalmente quente, além de violento. Quente em todos os sentidos, com blecautes, saques e demissões em massa. Agravando tudo isso, as monstruosidades de Sam. A população nova-iorquina vivia aterrorizada. Lee lembra-se bem disso, mas guarda duas outras recordações daquele verão: foi quando ele se decidiu a tornar-se cineasta e foi barrado na porta do Studio 44 (discoteca da moda na época).Como retrato daqueles anos bárbaros
"O Verão de Sam" é indiscutivelmente fascinante. Vinny e Ritchie, interpretados por John Leguizamo e Adrien Brody, formam a dupla de protagonistas com Dionna (Mira Sorvino), mulher do primeiro. Vinny é um fornicador compulsivo que quer levar todas as mulheres de Nova York para a cama. É adepto de orgias sexuais. Ritchie é perseguido por introduzir no Bronx as sementes do movimento punk, então florecente na Inglaterra.
Bom de ver, cheio de energia e vibração, "O Verão de Sam" ilustra bem as agruras atuais da carreira de Lee. O cineasta negro mais famoso da América há tempos deixou de fazer a coisa certa, pelo menos para aqueles que o consideravam uma alternativa forte aos estereótipos (anti)racistas de Hollywood. É injusto. Seus filmes continuam bons, mas o problema é que ele virou maldito no Brasil. Ou saem diretamente em vídeo ou nem chegam aqui (como He Got Game, com Denzel Washington). Ainda bem que "O Verão de Sam" chegou. O punk está presente, mas a essência do filme é mesmo disco, não faltando a cena em que Leguizamo e Mira dançam como John Travolta em "Os Embalos de Sábado à Noite". (L.C.M.)





