A expectativa para ver de perto o rei do Blues era muita. O show de B.B.King estava marcado para às 21 horas do dia 18 de março, no Teatro Guaíra, em Curitiba. A chegada dele ao Hotel Bourbon estava marcada para as 14 horas do mesmo dia, mas desde 13h30 eu já o esperava no saguão na esperança de ter o privilégio de conversar com Sua Majestade.
Após três longas horas de espera, o ônibus chegou e vi toda a equipe. Músicos carregando cada qual seu instrumento numa elegante simplicidade pareciam não estar se dando conta da importância que era recebê-los em nossa terra. Por último chegou B.B.King, conduzido pelo seu produtor no Brasil, mesmo visivelmente cansado cumprimentou a todos e foi levado rapidamente à sua suíte para descanso de poucas horas antes do show.
A The Soulution Orquestra abriu a noite a produtora de Zé Rodrigo, vocalista da banda foi responsável pela extensão da turnê de B.B.King até Curitiba , com a belíssima participação da curitibana Mr. Jack. ''Tínhamos a obrigação de chamar o Mr. Jack , pois eles são a banda de blues de Curitiba'', confessou Zé Rodrigo. O gaitista Benê, da Mr. Jack, não deixou por menos: foi o ponto alto da abertura preparando o público para a chegada do ''rei''.
Começou a tão aguardada apresentação de B.B.King. Um início sutil, simples, com som e luz na dosagem certa para dar destaque merecido aos músicos enfim, tudo sem grandes produções, mas com a capacidade de emocionar a platéia diante do inconfundível blend musical.
B.B.King à frente da banda, sentado com sua guitarra Lucille, distribuiu carisma e irreverência durante toda a apresentação. No palco, a dinâmica e experiência de 50 anos de carreira resultaram em uma performance perfeita, onde até a microfonia intencional foi provocada com o intuito de descontrair. Ele brincou o tempo todo com a platéia que retribuía com aplausos calorosos, quase intermináveis.
A música intensa e espontânea, acompanhada com sua voz profunda, inundou ouvidos e corações com canções como ''The Thill is Gone'', um dos seus maiores sucessos, levando a platéia ao delírio e tornando a noite realmente inesquecível.
Após o show, voltei ao hotel. Hospedei-me propositalmente no mesmo lugar que abrigou Sua Majestade, B.B.King. Lá, tive a oportunidade de me aproximar do rei do Blues assim que ele voltou da apresentação. Com toda simplicidade, chegou sorrindo e satisfeito por ter deixado uma enorme platéia em êxtase.
Foi nessa hora que eu o abordei: ''Mr King, blues from Brasil. It's for you''. Humildemente o presenteei com meu CD, ''Kiko Jozzolino e Ivho Pessoa'' sabe aquela coisa de você estar no lugar certo na hora certa? Não sei se por sorte ou merecimento, afinal passei mais de 15 anos ouvindo e estudando as músicas desse mito.
E aí, B.B.King voltou-se para mim, apertando minha mão e dando margem a uma conversa que não durou mais que três minutos. Foi o suficiente para lhe falar sobre minha admiração e que de tanto ouvi-lo parecia que eu já o conhecia há tempos e que sua vida fazia parte da minha.
Disse a ele que tocava blues há quinze anos e entreguei o material que tinha escrito sobre ele aqui na Folha de Londrina. Ele brincou: ''Preciso aprender a falar português''.
Quando perguntei sobre a expectativa de fazer 80 anos de idade, ele respondeu: ''Tenho 78 anos e nem penso em parar. Vivo o blues enquanto puder. Já passei por mais de 60 países e até hoje quando vou tocar, faço com muita emoção e respeito. O dia que não tiver mais emoção, nada mais estará fazendo sentido. Para mim vai ser só mais um ano, mas estão preparando um monte de coisas boas. A música é uma linguagem universal e o Blues pertence ao mundo, não sou eu nem o Buddy Guy que vamos eternizá-lo. Precisamos de pessoas como vocês, jovens, para dar continuidade ao nosso trabalho. Sei que no Brasil existem grandes representantes do Blues''.
Sobre o Brasil, mister King não economizou elogios, principalmente às mulheres: ''Se me convidarem de novo, eu volto. As mulheres aqui são maravilhosas e têm um grande calor humano''.
Beijei suas mãos e ele fechou a conversa com um abraço caloroso e agradeceu. Foi sem dúvida o momento mais emocionante da minha vida. A emoção continuou quando o vi atravessar o saguão do hotel com meu CD em suas mãos. Eu tive o privilégio de ver e tocar um grande rei.

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