''O Boca do Bode nasceu na praia. Viajando ao Nordeste com o amigo Itamar Assunpção, que tinha conhecido no movimento de teatro universitário, em várias praias ele me disse que pretendia fazer um show de música, queria que eu dirigisse, perguntei quando. Ele disse que ainda estava aprendendo a tocar violão e me avisaria.
Quase dois anos depois, ele me disse que estava pronto para o show, que faria com Walter Guimarães. Aí eu soube que outros também queriam montar seus shows de música (Arrigo e Tonelli, Edvaldo Viecelli, Amaro e Chico Grilo, Robinson Borba). Então chamei para uma reunião, onde mostrei que seria muito melhor para todos fazer um show coletivo, dividindo os encargos de arranjar local, fazer divulgação, conseguir liberação da Polícia Federal (era ditadura) etc.
Havia porém diversidade de concepções artísticas quanto a luz, figurinos etc, mas propus que cada um fizesse como bem entendesse com suas apresentações, e toparam. O Vanoly Acosta Fernandes, diretor da Casa da Cultura, deu apoio, e A Musical emprestou instrumentos, mediante cheque meu (sem fundos) de caução. Contratamos o conjunto Rainbow, de rock e formado por nisseis, para dar o suporte de caixas de som e instrumentistas básicos (baixo, bateria etc).
Na primeira noite quase lotou o Teatro Filadélfia. Na segunda, lotou, e na terceira super-lotou. O Carlinhos, que dançava vestido de Carmem Miranda na última música, em clima de 'happening', sentou no colo do prefeito José Richa, sentado na primeira fila, e o Richa ficou tão vermelho que parecia que ia explodir.
O show foi um sucesso porque, além do talento do pessoal, apresentava diversidade com integração, que surgiu durante os ensaios. Não apresentei à Polícia Federal as letras das músicas que poderiam ser proibidas, e ''endireitei'', só no papel, várias letras. No último ensaio, que devia ser visto por um policial federal, falei ao pessoal para virem vestidos direito (camisas para dentro das calças, cabelos penteados), e, quando o policial chegou e perguntou quando demoraria o ensaio, falei umas três horas no mínimo. Ele deu a liberação e foi embora...
Toda a renda do show, depois de pagas as despesas, demos para a Casa da Cultura comprar seus primeiros microfones e caixas de som. O Boca do Bode foi um fenômeno de talento, diversidade, integração e responsabilidade social, quando essa expressão nem existia ainda.''

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