Denzel Washington é candidato a melhor ator por "Hurricane", filme contra a discriminação racial
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2000
Por Rui Martins 
Berlim, Alemanha, 17 (AE) - O ator negro Denzel Washington, indicado para o Oscar de melhor interpretação, poderá ganhar também o prêmio de melhor ator no 50º Festival de Cinema de Berlim. Em "Hurricane", de Norman Jewison, ele encarna o boxeador negro Rubin Carter, acusado e condenado à prisão perpétua por assassinatos que não cometeu. Perto de chegar ao título de campeão mundial de boxe, Rubin Carter foi vítima do racismo nos anos 60, no Estado americano de New Jersey. Seu julgamento teve provas montadas para acabar com sua carreira.
Na prisão, Rubin Carter escreveu uma autobiografia, "Hurricane", que chegou às mãos de um jovem negro e irá provocar uma revisão do processo. Isso levará 16 anos. Apoiado por uma comunidade canadense, alertada pelo jovem negro, que decide estudar Direito para ajudar Carter, o ex-boxeador será libertado e inocentado depois de ter cumprido 30 anos de prisão. Numerosas personalidades tentaram, sem resultado, sua libertação nesse longo período. O cantor e compositor Bob Dylan chegou a cantar a história de Hurricane (Furação, o apelido de Rubin Carter), "que poderia ter sido campeão mundial de boxe."
O filme acentua o drama da discriminação racial e seu encontro com um jovem negro, que lhe deu coragem para aguentar até ser libertado. Além de Denzel Washington, o cinema americano tem outros grandes atores negros como Sidney Poitier , Morgan Freeman, Whoopie Goldberg e Harry Belafonte. Denzel Washington e Norman Jewison falaram à Agência Estado em Berlim. Agência Estado- Há chances de "Hurricane"ganhar o Oscar ? Norman Jewison - Não tenho a menor idéia. A condenação de Rubin Carter provocou muita mobilização e controvérsia durante anos, mas em termos de prêmios acho que chegamos um pouco tarde. Fomos o último filme do ano passado e muita gente da comissão julgadora ainda não oviu, o que dificulta a premiação. Em todo caso, não faço filmes para ser indicado ao Oscar. AE - Denzel, como se preparou para esse papel? Denzel Washington - Levei um ano e meio me preparando, lutei box
estive com Rubin Carter. Não procurei imitá-lo, mas mostrar seu caráter. Para mim parecia incrÍvel essa história verdadeira. Jewisson - Ele trabalhava o personagem duas horas por ida e emagreceu antes de comecarem as filmagens. Nunca tinha visto um ator trabalhar tanto. AE - Como vocês acompanharam esse caso? Washington - Eu não conhecia o caso e não sabia nada sobre esse boxeador. Eu o encontrei, pela primeira vez, em 92, em Toronto. Li seu livro e fiquei impressionado com sua figura. Acabei querendo fazer realmente esse papel. Jewison - Acho que todo mundo se lembra da canção de Bob Dylan, Here comes a story of Hurricane, de 72. Em 66, 67 li o caso nos jornais, mas para mim não parecia nada novo, era mais algum vÍtima da discriminação racial. Na América dos anos 60 havia muitos casos de injustica racial. Denzel queria fazer esse papel
antes mesmo do filme. Há quatro anos começamos a tratar do filme. Era difícil colocar todas as pessoas que o ajudaram dentro do filme. O filme é a história da luta de um homem, com seu espírito inquebrantável e sua relação com um jovem negro, que leh deu esperança e coragem para continuar lutando. É o triunfo sobre uma situação terrível montada por seus inimigos. É a vitória do espírito humano. É a vitória da justica, mas desde que se tenha coragem para se aguentar tanto tempo. AE - O filme pode ajudar alguma coisa hoje nos EUA? Washington - Ainda hoje ocorrem casos parecidos. Rubin Carter luta para ajudar outros, que como ele, são vÍtimas de injustiças. Espero que o filme possa ajudar nos dias de hoje. AE - Teria feito o filme se o fim tivesse sido diferente? Jewison - Hollywood não se interessa por filmes com fim infeliz. Mas vida tem fins infelizes. Sempre fui otimista. Houve uma parte miraculosa nesse caso Rubin Carter. Se o jovem não tivesse lido a autobiografia de Hurricane, e foi o primeiro livro que leu, e se Rubin não tivesse lido a carta que ele enviou depois de ler o livro, nada teria acontecido. Rubin costumava jogar fora as cartas sem ler, mas a carta do jovem negro tinha um selo diferente, um selo canadense, e isso mudou o curso dos acontecimentos. Porém, mesmo que a história tivesse um outro fim
acho que teria feito o filme assim mesmo. Os EUA tem leis que repousam sobre a Constituição, se diz país da liberdade, conta belas coisas, mas é um país que ainda repousa sobre o racismo. Mas a América não é o único país que se confronta com o racismo. AE - Esse filme faz parte de uma luta sua? Washington - Essa é uma historia que nunca acaba, para que as pessoas sejam respeitas independentemente de sua cor, religião, etc. Se teremos uma sociedade que, sinceramente, aceite todas as pessoas, não sei. Mas podemos investir e nos engajar nisso, é uma coisa que tenho feito em toda minha vida. Jewison - Quando eu era jovem, em viagem pelo sul dos EUA, vi o apartheid, pela primeira vez na minha vida, era logo depois da guerra. Nunca esqueci. Era injusto. Os jovens negros americanos podiam ir à guerra pelos EUA, para isso eram bons, mas não para outras coisas. Se hoje posso fazer filmes, faço sobre coisas como essa.


