Em 1970, um jovem artista plástico carioca exibiu ao público uma obra polêmica de forte impacto. Consistia em uma estaca de madeira com um termômetro na ponta. Na base da estaca, sobre um pano branco, dez galinhas vivas amarradas. Para concluir o trabalho, o autor derramava gasolina sobre as galinhas e riscava um fósforo, colocando fogo em tudo. Título da obra: ‘‘Tiradentes: Totem-Monumento ao Preso Político’’. Anos mais tarde, iria declarar que jamais repetiria um trabalho como aquele: ‘‘Ainda posso ouvir as pobres galinhas em minha memória psicológica. Mas em 1970 senti que era aquilo tinha de ser feito.’’
O jovem era Cildo Meireles, hoje considerado um dos artista plástico brasileiro de maior destaque no panorama da arte internacional. Um dos pioneiro da arte conceitual no Brasil, foi responsável pela criação e construção das primeiras instalações no país. Dando prolongamento às idéias de Hélio Oiticica e Lygia Clark, algumas de suas obras tocam não apenas a visão, mas estimulam outros campos da percepção como a audição, o tato, olfato e até mesmo o paladar.
A Editora Cosac & Naify está lançando ‘‘Cildo Meireles’’, livro que oferece uma ótima oportunidade para se conhecer o obra e a trajetória estética do artista. Amplamente ilustrado, o volume oferece uma visão completa da obra de Cildo Meireles, do florescimento de seus conceitos artísticos, nos anos 70, até sua recente consagração como um grandes criadores contemporâneos.
O livro é a edição brasileira do volume publicado originalmente na Inglaterra pela editora Phaidon Press, em 1999, por ocasião da abertura da mostra de Cildo Meireles no New Museum of Contemporany Arte, em Nova York. É composto por uma entrevista do artista concedida ao crítico de arte cubano Gerardo Mosquera; um belo ensaio de autoria do crítico brasileiro Paulo Herkenhoff que oferece subsídios para uma compreensão abrangente do teor político, estético e filosófico de sua obra; um ensaio do crítico norte-americano Dan Cameron falando especificamente sobre a instalação ‘‘Desvio Para o Vermelho’’, exibida na XXIV Bienal de São Paulo em 1998; e um conto do escritor argentino Jorge Luis Borges, ‘‘O Jardim das Veredas que se Bifurcam’’, escolhido por Cildo Meireles por representar paradoxos semelhantes aos presentes em suas obras.
Uma das surpresas do livro está trazer textos de autoria do próprio Cildo que expõe conceitos de alguns de seus projetos. Funcionando como complemento dos outros textos citados, oferece um panorama completo da ‘‘ideologia estética’’ do artista, informações elucidativas tanto para aqueles que não conhecem seu trabalho como para admiradores e estudantes de artes. A arte conceitual – em grande parte banalizada de maneira inconsequente e, principalmente, inconsistente nos último anos – encontra uma base sólida nos trabalhos de Cildo Meireles que se insere de maneira clara e definitiva na história da arte contemporânea.
Ao 52 anos de idade, Cildo Meireles está realizando a primeira retrospectiva de sua carreira, aberta semana passada no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM). A mostra reúne 27 trabalhos, alguns pertencentes a acervos de museus internacionais e nunca exibidos no Brasil. Entre eles o famoso trabalho ‘‘Fontes’’, pertencente ao acervo da Documenta de Kassel, Alemanha. A obra é composta por uma sala totalmente amarela com mil relógios de parede e seis mil réguas de carpinteiro penduradas no teto. Tudo amarelo. Trabalhos como esse estão avaliados, no mercado exterior, em torno de US$ 300 mil.
Além da retrospectiva do MAM, que permanece do Parque do Ibirapuera até setembro (depois segue para o Museu da Arte Moderna do Rio de Janeiro), uma outra exposição de Cildo Meireles foi aberta também na semana passada, na galeria paulistana Luiza Strina, com trabalhos recentes.
•‘‘Cildo Meireles’’ com texto de Gerardo Mosquera, Paulo Herkenhoff, Dan Cameron, Jorge Luis Borges e Cildo Meireles. Editora Cosac & Naify, 160 páginas, ilustrado. Preço: R$ 70,00.

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