São Paulo, 16 (AE) - Meia-noite, num estúdio de gravação no centro do Rio, o ator Paulo Betti espreme-se num espaço exíguo para terminar de ler longos três blocos de texto do documentário Sabor da Terra - O Cinema de Humberto Mauro. Foi dessa maneira pouco confortável que ele gravou sua participação na obra. Contudo, o aperto e as várias horas gastas para narrar a vida e obra do cineasta mineiro não passaram de detalhes para Betti. "Adorei fazer esse trabalho, é um texto lindíssimo do Paulo Emílio Sales, que foi adaptado por Roberto Moura e Sérgio Santos", elogia o ator. "Paulo foi um dos mais lúcidos defensores do cinema brasileiro; dizia que qualquer coisa é melhor que o que é feito no exterior."
Betti confessa que ficou um pouco assustado com a profundidade e densidade do texto, que não conhecia até chegar ao estúdio. Achou que o público não ia gostar de ouvir aquilo tudo. "Algumas idéias são complexas, com análises de como foi filmada a cena e implicações do argumento da obra", conta Betti. "De repente, percebi que tinha um verdadeiro tesouro na mão."
Paulo Betti diz que não precisou pensar para aceitar o convite de Sérgio Santos. "Há certos projetos em que só o nome já diz tudo", afirma. "Vi que era uma coisa que fazia sentido, ligada aos primórdios do cinema brasileiro, algo pelo qual tenho uma enorme fascinação."
Mas há algo mais por trás da voz de Betti em Sabor da Terra. O ator tem uma ligação irreversível com as coisas do interior. Assim como Humberto Mauro, prefere o rio ao mar, o aroma do mato à maresia. "Sou de Sorocaba, no interior, me identifico com aquela imagem emblemática do cinema brasileiro, em que Humberto Mauro está sentado na raiz de uma árvore; é uma metáfora do cinema voltado para o Brasil", analisa o ator. "Preferia ter lido o texto do filme sentado nessa raiz de árvore, no meio do mato", brinca. Betti tem também uma constante preocupação com a memória do País, outro fator que tornou prazerosa a narração do documentário. Esse apego ao passado vem desde o tempo em que ia visitar a mãe e ela abria o livro de fotografias da família para mostrar as tias, os avós e como eram as ruas da cidade décadas antes. "O cinema é um pouco isso, ele amplia a emoção e reaviva lembranças", compara Betti.
Entre os filmes de Mauro que Betti destaca estão Descobrimento do Brasil ("pela criatividade") e Brasa Dormida. "Claro que tem toda aquela simplicidade, mas são obras históricas", comenta o ator.

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