Denise Stoklos viaja no tempo
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quinta-feira, 13 de março de 2003
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Doze meses, 360 dias e milhares de segundos. A vida durante um ano pode sofrer alterações surpreendentes, mas também se restringir a uma rotina sufocante. As centenas de alternativas de escolha nesse período de tempo são abordadas em ''Calendário de Pedra'', da atriz, diretora e autora Denise Stocklos. Esse é um dos poucos espetáculos que fez uma rotina inversa a outras peças de Denise: estreou no Rio de Janeiro, há pouco mais de um ano e só agora chega ao Paraná, terra natal da artista.
''Calendário de Pedra'' tem curta temporada no Teatro Guaíra, em Curitiba. Na semana passada, a peça esteve em Irati (a 135 quilômetros de União da Vitória), onde Denise nasceu. ''Eu gosto de estar em dia com meu repertório e o espetáculo ainda era inédito no Paraná'', disse, em entrevista à Folha. A apresentação em Irati também marcou um ano da Fundação Denise Stocklos, criada para desenvolver projetos culturais e sociais.
A peça condensa as ações e reações humanas no período de um ano. Foi inspirado no poema ''Book of Aniversary'' da americana Gertrude Stein. ''O texto é muito valioso enquanto literatura, mas quando estava adaptando o espetáculo percebi que a estrutura dele seria melhor utilizada do que o texto em si'', conta Denise. Por isso ela optou por não levar para o palco o texto original da poeta. ''Me baseei na estrutura do calendário enquanto sistema'', diz.
O resultado visual é uma mulher na aparentemente simples tarefa de dormir e acordar, com ênfase para as suas experiências entre o dia e a noite. ''Mas não se trata de um diário'', avisa Denise. A intenção vai além. A peça quer abordar o sistema, nela estipulada por meio do tempo. ''É muito radical repetir um sistema e observar as coisas que nos ocupam durante um ano. As experiências podem ser mutáveis, mas a natureza humana para vivenciá-las é a mesma'', analisa.
Para desenvolver o espetáculo, Denise contou com a assistência de direção de Antonia Ratto, que fez um amplo trabalho de pesquisa. Os significados da pedra e o seu papel na sociedade, por exemplo, são sutilmente incluídos na peça. ''A pedra tem seu ciclo e traz a inserção da nossa história. Graças à ela podemos saber um pouco mais do nosso passado'', salienta a atriz. A palavra pedra também está no título do espetáculo como uma homenagem à autora do poema. Stein, sobrenome de Gertrude, significa pedra em várias línguas.
A peça tem duração de uma hora e 15 minutos e, segundo Denise, pode ser tanto uma comédia quanto um momento para reflexão dos espectadores. ''Depende de cada um'', avisa. No palco, a mulher em cena se confronta com a sua história, ''que pode ser a história de todos''. A personagem utiliza elementos da consciência coletiva para a narração, misturando sonho e a realidade.
Para levar o espetáculo ao palco, Denise lança mão de seu ''Teatro Essencial'', usando o mínimo de elementos cênicos possíveis. ''Não estou interessada num teatro de ficção, em que o espectador decifra um personagem, e sim no convite para que o público encontre a si mesmo. O texto é um trilho para essa viagem'', conclui Denise.
Serviço: ''Calendário da Pedra'', com Denise Stoklos. Hoje e amanhã, às 21 horas. Domingo, às 19 horas, no Teatro Guaíra - auditório Bento Munhoz da Rocha Neto. Ingressos a R$ 30,00 (platéia), R$ 15,00 (1º balcão) e R$ 10,00 (2º balcão).


