O mundo ainda está por ser revelado e não são somente os abençoados que têm poder de mostrar o que vêem, mas os que carregam a maldição de artistas, como a paranaense Denise Stoklos. Bênção e maldição não são antagônicos neles porque criam um mundo a partir do nada em sua arte ao mesmo tempo em que carregam os estigmas de artistas.
Stoklos traz esses estigmas e o teatro é o lugar em que revela o que consegue ver. A atriz, autora e diretora, que nasceu em Irati, mas conquistou o mundo ao se apresentar em mais de 30 países. ''Teatro é uma coisa que se revelou dentro e fora do meu ser desde que tenho conhecimento de estar viva. Já aos três, quatro anos me percebi dentro desse lugar chamado mundo. Eu tinha que revelar o mundo que via'', afirma Stoklos.
O universo de Stoklos pertence a todos, o que a fez conquistar Nova Iorque, onde se apresenta anualmente, desde 1987. Nele estão as coisas que mexem com cada um de nós e, por isso, não está preso a um lugar ou determinado pelo tempo. Um teatro sempre interessado no que envolve conduta de vida.
''Queiramos ou não, com um nome ou outro. Nada é durável, o que a gente gosta e faz é um empecilho para a humanidade caracterizar o que é importante porque diz respeito à minha vida particular, mobiliza o meu ego. Isso é assunto que tem relatividade, sendo um tema que interessa ao meu Teatro Essencial. É quando o dono do seu âmago passa a todos, mexe com todos'', ressalta Stoklos.
A atriz revela um pouco mais do que diz ao lembrar a peça ''Casa'', de 1990.
Ela conta que, no espetáculo, uma pessoa chega em casa e se relaciona com objetos. Stoklos explica que a peça não aborda nada superficial, mas tenta descrever ao que a personagem está exposta. ''Não vou falar o quanto custa a geladeira, o que seria um aspecto. Dou um passo a mais. Dou uma imagem semiótica da geladeira no sentido de que aquela mensagem é o meio. Vou à geladeira, abro e sento em frente. Fico olhando. A geladeira é um espelho para mim. A figura mais usada no Teatro Essencial é a da semiologia, a metáfora. Quem não faz metáfora está afastado do mundo inteiro. As coisas são tudo, além do uso. Felizmente, o homem tem inteligência de colocar as coisas em relação umas com as outras pela apreensão de cada imagem'', destaca a atriz, acrescentando que, na peça ''Casa'', olha para duas caixas de leite dentro da geladeira, mudando-as de lugar. O gesto parece simples, mas pode ter vários significados.
Stoklos aponta que os seus espetáculos trazem essas mensagens, o que leva o público aos seus espetáculos. Acreditando que o teatro também é um meio de trazer e provocar liberdade, Stoklos mostra os seus estigmas artísticas, que levam o público a esperar pela redenção através da arte. ''Sempre foi e será assim. O homem busca e quer a liberdade e o amor. Kafka, Monteiro Lobato, as sinfonias, as serenatas, as expressões artísticas todas, seja na escultura ou qualquer outra manifestação, tudo é para que o homem encontre o caminho mais amplo e possível. Isso não tem fim porque depende de momentos. Algumas pessoas já passaram por esse caminho. Outras nunca passaram. Cada um na sua fase, no seu estilo'', comenta a atriz, dizendo que alguns que assistem aos seus espetáculos são impermeáveis às suas mensagens e não gostam, achando sem sentido e que não emociona. A esses, Stoklos diz: ''Tudo bem. Foi um acidente de percurso''.

mockup