Denise Stoklos apresenta 'Vozes Dissonantes' em SP
São Paulo, 18 (AE) - Pátria é todo lugar que o homem forte escolhe para morada. Com essas palavras a atriz Denise Stoklos abre "Vozes Dissonantes", espetáculo que chega a São Paulo para quatro apresentações, a partir de amanhã (19), integrando a série "Solos de Teatro" do Sesc Ipiranga, depois de ter estreado no 9º Festival de Teatro de Curitiba, em março.
O texto de "Vozes Dissonantes" foi criado por Denise Stoklos a partir de uma costura de declarações de brasileiros como Gilberto Freire, Dom Hélder Câmara, José Bonifácio de Andrade e Silva, Hélio Peregrino, Frei Caneca, Milton Santos, Euclides da Cunha e Padre Antônio Vieira, entre muitos outros. "São as vozes dos que não aceitam habitar uma pátria corrupta e
por intermédio deles, levo ao palco uma pátria viva e resistente", afirma ela.
Em Curitiba, a atriz apresentou-se no Guairão, uma sala com capacidade para 4.186 espectadores, ousadia que dividiu com que apenas mais uma montagem da mostra oficial, "Replay", de Gabriel Villela. Mas ao contrário da segunda, que reduziu o espaço do palco com recursos cenográficos, a atriz ocupou todo o palco unicamente com o movimento de seu corpo, não utilizando qualquer cenário ou objeto de cena.
Mesmo falando para um teatro lotado, a atriz dispensou recursos eletrônicos como a utilização de microfones. E sua voz podia ser ouvida na última fileira. Sem dúvida, poucas atrizes tem os recursos gestuais e vocais de Denise Stoklos e apreciá-los torna-se um prazer a mais para o espectador. Sinceridade - Mas a atriz busca mais que exibir-se em cena. Há quem discorde da linha de seu Teatro Essencial, mas Denise Stoklos acredita no poder da palavra como forma de conscientização da platéia. E investe sua mais sincera energia nisso. "Eu poderia comemorar os 500 anos de descobrimento com uma peça mais suave e poética ou utilizar as vozes dos que estão satisfeitos, porque eles existem", diz. "Mas acredito no poder curativo do teatro", afirma. "Quero aproximar meu teatro essencial do teatro grego, no qual as pessoas discutiam em praça público o erro dos governantes, ficavam indignados e sofriam com as consequências e, ao fim, tudo isso funcionava para a transformação pessoal do espectador". Segundo a atriz, criar o espetáculo serviu antes de mais nada para transformá-la. Orientada pelo embaixador Lauro Moreira, Denise Stoklos foi descobrindo pérolas da literatura voltada para a nossa história, em relatos de autores que jamais havia lido como Matias Aires e Dirceu Lindoso.
"Difícil é escolher o que levar ao palco, porque dá vontade de contar a história de muitas revoltas, como a Revolta dos Cabanos, a Sabinada, a Revolta da Chibata". Falácia - Em sua intensa pesquisa de mais de dois anos, Denise Stoklos descobriu a falácia do brasileiro cordial. Afinal, não só foram muitas as revoltas contra a opressão e a injustiça ao longo da formação do País, como a maioria foi abafada com grande violência e requintes de crueldade. Decaptações, esquartejamentos, chacinas de homens, mulheres e crianças abundam em nossa história. "Felizmente nunca deixaram de existir nossas vozes dissonantes".
Indignação é o tom que perpassa o espetáculo. Mas a atriz não dispensa o humor. "Ser crítico e indignado não significa ser mau humorado, mas não gosto de ironia, prefiro o humor crítico e direto". (B.N.) Serviço - "Vozes Dissonantes". Criação, direção e interpretação de Denise Stoklos. Duração: 60 minutos. De quarta a sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 12,00. Teatro do Sesc Ipiranga. Rua Bom Pastor, 822, tel. 3340-2000. Até domingo





