Denise Stoklos abre o FILO
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segunda-feira, 31 de maio de 1999
Antônio Mariano Júnior 
Há espetáculos que são belos. E são só isso: belos. E há, no outro extremo, espetáculos que são tão belos, mas tão belos que se sai do teatro com uma vontade imensa de reformular a vida, reorganizar sentidos, fazer bom uso do que se absorveu pelos olhos e ouvidos. Alguns podem sair mais, outros menos. Porém quem for assistir ao monólogo Desobediência Civil, espetáculo que abre oficialmente a fase internacional do Filo, hoje, às 21 horas, no
Cine-Teatro Ouro Verde, não sairá apático às lambadas poéticas do texto. O espetáculo será reapresentado amanhã.
Em cena, apenas o essencial. Ou seja, Denise Stoklos. Que sedimentou o espetáculo em Sobre o Dever de Desobediência Civil, de 1849, uma das pérolas deixadas por Thoreau (1817-1862). O texto conta também com enxertos de outra obra do filósofo americano, Walden, or life in the woods (Walden, ou vida nas florestas, de 1854), além de citações de outros autores, entre eles Paulo Freire.
O arremate ficou por conta de textos da própria Denise. Desobediência Civil é sobretudo poético, mesmo tendo partes cômicas, tiradas geniais. Denise em cena é algo fabuloso. De se arrancar aplausos e aplausos em cena aberta, sem nenhum exagero. O espetáculo estreou oficialmente no final de 97, em Irati (PR), cidade natal da atriz.
Thoreau e seu Sobre o Dever de Desobediência Civil, como explica Denise, lhe caiu às mãos há coisa de seis anos. Presente de um amigo. Ela leu e encantou-se. Ele (Thoreau) é um filósofo inspirado que deveria ser lido no ensino básico- diz ela. E daí que tal encanto tomou forma de um espetáculo que se passa nos minutos que antecedem a meia-noite do ano 2000.
Nesses momentos, Denise doa-se de tal jeito ao público que somente uma pedra não vai se comover ou parar para refletir nesse discurso sobretudo de amor à humanidade, sem se esquecer também de clamar amor à natureza. Essas e outras idéias vindas de uma alma anárquica-pacifista, como a de Henry David Thoureau, acabaram tocando os corações, acabaram tocando Ghandi e Martin Luther King, por exemplo.
A proposta de Thoreau era de uma desobediência às convenções que impedem o nosso desenvolvimento humanista- frisa Denise. Desobediência Civil é um espetáculo grandioso - as cenas da dança das cadeiras e a sequência final do espetáculo com vários monitores de tevê ao fundo são fantásticas - mas não fácil. Quer dizer, não vem mastigadinho ao público. Cada um vai tirar suas conclusões; cada um vai se deixar levar pelos caminhos que melhor lhe convier.
É como uma aula em que o professor traz o tema para que os alunos possam ou queiram desenvolver ou não. E nessa relação professor-aluno eu sou apenas uma monitora de Thoreau-público- diz ela. E competente monitora, diga-se! Por conta deste espetáculo a atriz foi convidada pela Universidade de Nova York para dar um curso de arte performática no início do ano que vem.


