DEMETRIO STRATOS uma viagem sonora
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 18 de fevereiro de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem local 
No princípio era a voz. Até porque os sons guturais e o canto das sereias sempre estiveram carregados de sentidos, antes mesmo que a palavra surgisse para codificar desejos, formatar emoções ou represar instintos.
Com o advento do verbo, a humanidade atingiu o poder da fala. Porque a palavra - como ensinam os antigos - merece reverência e com a reverência nasce também a hierarquia no discurso. Mas a supremacia da palavra - não se enganem - é também a ''voz de comando'' do pastor que, literalmente, enche os ouvidos dos fiéis com a articulação das mensagens. Com a gênesis, como explicam as escrituras, a humanidade conheceu o poder do verbo. Mas a questão que se coloca é a seguinte: com a criação do verbo o que se perdeu?
O resgate das sonoridades perdidas é um dos eixos do livro ''Demetrio -Stratos - em busca da voz-música'', de Janete El Haouli, que será lançado amanhã em Londrina. Desdobramento da dissertação de mestrado apresentada na Escola de Comunicação e Artes (Eca) da Universidade Estadual de São Paulo em 1993, o livro que está na quinta edição na Itália chega agora ao Brasil, reunindo a pesquisa sobre o cantor egípcio considerado uma expressão da vanguarda, um estudioso obsessivo da voz humana em todas as suas possibilidades. A publicação é a primeira no mundo a resgatar sua obra.
Janete El Hauoli é passageira da sua ''audisséia'', revolvendo a mitologia grega e a psicanálise para estabelecer a relação antiga e contemporânea do homem com o universo dos sons. Da Grécia, ela recupera Ulisses, tapando os ouvidos com cera para não escutar o canto das sereias. Na lenda transparece o desejo em fuga, assim como ainda hoje tapamos os ouvidos para não ir de encontro ao que nos arrebata. Para estimular esse arrebatamento, penetrando o coração do homem no que ele espontaneamente tem a expressar é que - muitos séculos mais tarde, quando Ulisses adormeceu como mito - a psicanálise reconstruiu a escuta como instrumento capaz de penetrar a alma do outro, rompendo a barreira do medo.
Se abrirmos os sentidos, vamos descobrir que a voz humana é música originalíssima, capaz de repassar, por exemplo, ao telefone os estados de paciência ou a pressa de nosso interlocutor. Alô! Ou Alôôô! são interjeições absolutamente diferentes. Assim como a voz da recepcionista é calculadamente profissional ou a das mensageiras dos aeroportos carregadas do erotismo das sereias modernas. Nunca sabemos se chamam para o gozo ou para o vôo.
Vozes e vozes. Do tom frio à modulação do desejo. Da extensão do prazer à extensão da dor, a voz pode ser compreendida como a expressão mais intensa do homem. Mesmo que não houvesse palavras, a sonoridade é capaz de expressar tudo e é deste universo que Janete el Haouli se ocupou para analisar a experiência que ela relata como uma ''audisséia''.


