DELUQUI EM CARREIRA SOLO
PUBLICAÇÃO
sábado, 14 de abril de 2001
Zeca Corrêa Leite De Curitiba 
O guitarrista Fernando Deluqui tem 20 anos de palco e acredita que muito dos bastidores do show-biz ele já viu. E sentiu na alma. Pertenceu ao Engenheiros do Hawaí, foi um dos fundadores do maior fenômeno roqueiro do País, a banda RPM, e depois de passar quatro anos batendo nas portas das gravadoras, esperando por uma resposta que nunca chegou, decidiu-se a gravar um disco independente. Tornou-se mais um a engrossar a lista dos que deixaram o sistema imposto pela poderosa indústria fonográfica, para cuidar da carreira de forma alternativa.
Este é seu primeiro CD solo e independente, onde se lança como cantor. Ele é interessante por ter grande variedade de estilos, disse o artista num encontro com a Folha 2, em Curitiba. Tem desde o rock selvagem até coisas mais acústicas, passando por misturas de ritmos brasileiros, adiantou o moço. Nessa diversidade musical somam-se parcerias com Péricles Cavalcanti, Fernando Zarif, Virgínia Carvalho, Ciro Pessoa. O disco (Fernando Deluqui) está nas lojas, avisa o músico.
Ao mesmo tempo em que viaja pelo Brasil com um show em formato de trio, Beluqui está na MTV e Multi Show com o clip da música O Fogo e mantém contato com os fãs que acessam o site www.fernandodeluqui.com.br. Ali consta o endereço do e-mail.
Só peço um pouco de paciência: o site vai ficar ainda melhor daqui a um mês, antecipa-se. Quanto a possíveis interessados em contratá-lo para levar o show, deixa os telefones de contato: (11) 3673-5340 ou (11) 9108-2770. Uma coisa é certa: dificilmente voltará a integrar bandas a exemplo do que aconteceu no passado. Não me vejo mais tocando em bandas como um coadjuvante, afirma nesta entrevista.
Por que você tomou esse caminho independente?
Porque depois de quatro anos oferecendo trabalhos às gravadoras e ouvindo comentários sem noção, resolvi que era tempo de eu lançar o disco do jeito que estava, até mesmo porque o público, nos shows, já estava pedindo isso. Ouvi coisas de gravadoras que ninguém acredita. Por exemplo, levei o disco numa delas e o cara falou queria que você deixasse mais moderno, está um pouco antigo. É até normal você ouvir isso, o cara acha que precisa fazer novos arranjos. Passaram seis meses, voltei para a gravadora e o mesmo cara falou que estava moderno demais, eu teria que deixá-lo um pouco mais antigo. É assim: todas as gravadoras só dizem que gostam do seu trabalho, mas é tanta enrolação que quando vi tinham passado quatro anos e eu parado esperando por uma gravadora com o disco pronto. Aí achei de eu mesmo lançar. Lancei no Crowne Plaza. O disco é bom: tem qualidade de áudio, gráfico, é muito legal.
Como você definiria este trabalho? Que 3x4 você faz dele?
Este é um disco heterogêneo e homogêneo ao mesmo tempo. É heterogêneo porque tem vários segmentos, várias direções, e por isso as gravadoras não quiseram lançá-lo. Elas acham que tudo tem que ser dentro de uma área específica. Se você faz samba, reggae não faz rock. Música acústica você vai poder lançar daqui a quinze anos num disco acústico. Esse disco tem vários direcionamentos a partir do rocknroll e passa por outros ritmos. Diria que este é meu primeiro trabalho onde estou dizendo o que queria dizer há tempos. A principal coisa que ele tem é mostrar o meu momento hoje, o que quero dizer, como estou falando das coisas que penso e como são os arranjos que estou fazendo.
O repertório traz canções mais recentes ou você faz um apanhado de toda produção?
Diria que é um apanhado. Tinha umas 45 músicas gravadas e mixadas e escolhi 13 para o disco. Tem algumas feitas 10 anos atrás e outras a seis meses.
Esperar quatro anos pela definição de uma gravadora é uma consequência sintomática. Isto seria um quadro real daquilo que estamos vivendo?
Sim, acho que como eu muitos artistas de talento não têm espaço. Mas não é só culpa das gravadoras, é culpa também da mídia que não escala artistas para os programas. Estou na pauta de alguns programas de televisão há um ano, e ainda não fui chamado. E olha que tenho um nome, tenho 20 anos de carreira, passei por duas bandas, sendo que uma delas foi o maior estouro de todos os tempos do rock nacional. Isso faz você pensar: por que vivemos essa situação? O que leva a mídia a agir desse jeito? As gravadoras a agirem desse jeito? Para não ficar parado resolvi lançar meu produto e cair na estrada. Entrar para o show bussiness à minha maneira, tentando levar meu trabalho às pessoas com todo cuidado e sendo feliz.
Como tem sido essa experiência?
Estou trabalhando com várias coisas, não só com o som, mas com a parte gráfica do CD. Estou muito mais envolvido do que estava na época do RPM ou dos Engenheiros do Hawaí, onde era só um guitarrista. Hoje estou escrevendo as letras, estou cantando. A banda não tem road, a gente está montando as coisas, escolhe o cartaz para a divulgação. Mas é difícil penetrar nos meios de comunicação. Não sei quais os parâmetros dos caras, mas acho que eles não escalam quem tem disco independente, mesmo que a pessoa tenha certa projeção e qualidade. Ninguém escala, não põem no rádio, não põem na TV, não dão matéria em jornal.
Saindo do preconceito da mídia, o que você está descobrindo nessas viagens?
Estou descobrindo que as pessoas gostam do meu trabalho. Há um outro país que se movimenta por baixo daquela coisa pobre e imposta pela mídia. A internet tem me ajudado muito nesse sentido de contato. Tenho me comunicado com muitos fãs que vêm dos tempos dos Engenheiros, como do RPM também, que valoriza e conhece o que faço. Aliás, vou voltar a gravar com os Engenheiros do Hawaí no próximo disco deles. O que acontece agora em relação aos fãs não existia antes. No tempo do RPM era uma gente... sei lá que gente era. Bastou passar seis meses e ninguém mais queria ir no show. Então, demoramos seis meses para tocar na Praça da Apoteose e nos outros seis estávamos tocando num boteco sei lá onde. É uma coisa que faz pensar. Hoje não é assim: as pessoas que estão indo ao show gostam, dão valor, me conhecem.
Essas experiências pelas quais passou fizeram de você um homem mais cético em relação à fama? Ou um lado sonhador ainda persiste?
Acho que as duas coisas. O ceticismo é positivo quando você tem uma inocência que eu perdi. Ser sonhador é até legal porque vejo que estou no caminho certo. Sinto que o show, o movimento em torno estão crescendo. Quero lançar logo um segundo disco solo. Também quero uma carreira solo longa; não me vejo mais tocando em bandas como um coadjuvante. Quero continuar meu trabalho de compositor, de arranjador. E também tocar com participações: fiz shows com Edgar Scandurra, no Blém-Blém, com o Paulo Mikloz, no Sesc Ipiranga e tem sido muito legal.
Com tudo o que passou, hoje você se sente mais sábio?
Sim. Depois de quase 20 anos de carreira a vida me ensinou muita coisa. Estou curtindo muito como ela está hoje. Tenho muito mais prazer.


