Delta do Parnaíba, um estímulo para todos os sentidos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 17 de novembro de 2004
Iuri Pitta<br> Agência Estado 
Parnaíba - O ouvido nem se incomoda com o barulho da lancha. A pele só lembra que o sol queima para valer quando o protetor venceu. No Delta do Parnaíba, o sentido mais estimulado é a visão e o corpo parece dar atenção apenas para isso. Olha-se para um lado, para o outro, e a paisagem não se repete. Pudera: a foz do rio que dá nome à cidade e ao principal ponto turístico do litoral do Piauí tem mais de 80 ilhas em seus 2.700 quilômetros quadrados. E a melhor parte é que a maioria ainda está do gosto da natureza, e não sofreu tanto com a interferência do homem.
Delta vem da forma da quarta letra grega, um triângulo. Parnaíba é o nome do rio que faz a divisa entre Piauí e Maranhão e desemboca no Atlântico em cinco grandes ramificações, mais de 1.400 quilômetros depois de nascer. O resultado é um acidente geográfico único nas Américas o Delta do Mississipi deságua em mar fechado , existente apenas na África (Rio Nilo, no Egito) e Ásia (Rio Mekong, no Vietnã). Antes de chegar ao mar, o curso d'água doce se abre em igarapés que formam o delta, deixando pelo caminho ilhas de mangue, dunas e mata habitats de uma fauna rica e colorida.
Das ilhas de mangue saem os caranguejos que fazem sucesso em alguns restaurantes no Piauí e em quase todos que servem o prato no Ceará. Por mês, são retiradas até cem toneladas da espécie. O crustáceo é pego debaixo da terra e amarrado em cordas. Dois pares de caranguejo são vendidos a intermediários por apenas R$ 1,00. Isso explica porque é tão comum ver os catadores, com a roupa e o rosto cobertos de lama, enquanto se navega pelo delta.
Os passeios costumam sair de Porto das Barcas, perto do centro de Parnaíba, ou de um cais menor no Rio dos Tatus. De lá também partem os pescadores da região em canoas simples, cujo maior luxo é uma vela para dar um descanso ao braço. O turista não precisa fazer tanto esforço: pode ir numa barca para até 70 passageiros, com direito a sombra e necessária água fresca para enfrentar o calor. Ou optar por lanchas para até seis pessoas, mais rápidas e mais caras. Enquanto o primeiro sai por R$ 40,00, o último varia de R$ 100,00 a R$ 500,00, dependendo da distância a se percorrer. Vai do gosto e do bolso do freguês.
Logo ao partir dos Tatus, os turistas começam a ver as canoas dos pescadores ou dos moradores locais. O rio ainda é um dos principais meios de transporte da população, assim como as trilhas improvisadas dentro das ilhas. Em algumas, um tipo de vegetação mais baixa se diferencia da mata nativa de grande porte: são arrozais plantados pelos ribeirinhos apesar desse tipo de cultivo ser considerado nocivo à preservação dos manguezais.
Anda-se, aliás, navega-se mais um pouco e uma enorme duna enche a paisagem. A água ainda é doce e um mergulho, mais do que merecido. O calor está forte, mas isso só se percebe quando o guia conta que a parada em Morro Branco é uma das melhores para banho. Sim, afinal, a visão está ocupada demais contemplando a combinação da montanha de areia com o verde da ilha logo adiante. E água para mergulhar é o que não falta em um delta.
Morro do Meio é outra dessas opções para banho. O nome parecido se explica por causa da duna. A diferença em relação a anterior está na água, que não é mais doce, mas também não é salgada como em uma praia. Soa estranho, mas é isso mesmo, um meio termo entre banho de rio e de mar.
De volta à embarcação, é hora de torcer. Não a roupa, que o vento e o calor se encarregam de secar. Qualquer turista fica na expectativa ao saber que pode ver variadas espécies de animais. Volta e meia o céu muito azul é cortado por aves de todos os tipos e cores. O vermelho da graúna enche os olhos, por mais longe que o pássaro esteja. Em compensação, é preciso uma atenção a mais para achar a iguana escondida nos galhos das árvores.
O passeio segue por igarapés minúsculos, fechados e praticamente cobertos pela sombra das árvores. A lancha vai devagar, pois existe o risco de ficar presa num banco de areia, sem falar nas folhas que podem enroscar na hélice do motor.
Algumas horas depois, o Porto dos Tatus (ou o das Barcas) volta a surgir no horizonte. O passeio está no fim. Havia muito mais a se ver pelo delta, mas não há problema. Parnaíba, a cidade, também tem atrações para os olhos e os outros sentidos.
Viagem feita a convite do Sebrae-PI


