Delírios de uma bailarina
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 04 de fevereiro de 2011
Omar Godoy <br> Equipe Folha 
Atenção: ''Cisne Negro'', em cartaz a partir de hoje no Brasil, não é sobre o mundo do balé. Ou pelo menos não trata apenas disso, como sugerem os comerciais de tevê. Indicado a seis Oscars, o filme do diretor Darren Aronofsky (''Requiem para um Sonho'', ''O Lutador'') é um suspense psicológico para adultos, com altas doses de tensão e sensualidade.
A história é centrada na figura de Nina (Natalie Portman), uma bailarina profissional extremamente comprometida com sua companhia. Comprometida até demais. Aos 28 anos, mora com a mãe superprotetora (a ótima Barbara Hershey) e se limita a viver entre o teatro e sua casa.
Quando o grupo se prepara para encenar uma nova versão de ''O Lago dos Cisnes'', e a dançarina principal é forçada a se aposentar, ela agarra com unhas e dentes a oportunidade de ganhar o papel principal. Um desafio e tanto, já que a adaptação prevê que a estrela do espetáculo interprete dois personagens - o Cisne Branco e o Negro.
Enquanto encarna o primeiro, Nina é incrível. Afinal, sua personalidade ingênua e frágil combina perfeitamente com a coreografia. A difilcudade surge na hora de dançar as partes do Cisne Negro - perverso, agressivo, lânguido. Instigada pelo autoritário diretor da companhia (vivido pelo ator francês Vincent Cassel), ela terá de descobrir sua faceta libertária.
Exigida por todos, principalmente por si mesma, a personagem se desestabiliza e inicia uma jornada delirante. A partir daí, fica difícil saber o que é ficção e realidade na trama, que ganha tintas expressionistas (e também um clima de tensão digno dos filmes de Roman Polanski e David Cronenberg).
O problema é que, apesar de seu talento inegável, Aronofsky quase sempre derrapa no superficialismo. Como se apostasse num ponto de vista e o mantivesse firme até a última cena - sem muita reflexão ao longo do processo. Nesse sentido, ''Cise Negro'', mesmo com todo seu rebuscamento, pode ser considerado previsível.
Sobre Natalie Portman, fica a certeza de seu favoritismo ao Oscar de melhor atriz. É verdade que ela passa 90% do tempo com cara de quem comeu e não gostou, mas sua doação ao papel convence até os críticos mais ranzinzas. Se a Academia não resolver premiar a veterana Annette Bening (''Minhas Mães e Meu Pai'') por injustiças cometidas em anos anteriores, a estatueta é de Natalie.


