Delírio pouco é bobagem
PUBLICAÇÃO
sábado, 24 de fevereiro de 2001
De Londrina Especial para a Folha 2 
JoLayne é uma enfermeira negra que toda semana joga na loteria com esperança de ficar rica e se dedicar às causas ecológicas. Escolhe sempre os mesmos números: 17, 19, 22, 24 e 30. Não os escolhe por acaso, mas por um significado especial: cada um deles representa a idade na qual descartara um homem insuportável. Namorados, maridos e amantes.
Certo dia, quando menos espera, acerta os números na loteria da Flórida. O prêmio, de US$ 28 milhões, deve ser dividido com outro ganhador. O sonho de JoLayne é comprar uma mata nativa prestes a ser derrubada para dar lugar a um shopping center.
O que seria a solução de seus problemas, torna-se motivo de problemas maiores. Isso porque, o outro ganhador uma dupla de bandidos psicopatas decide em não dividir o prêmio com ninguém, ainda mais com uma negra. Com o dinheiro pretendem fundar uma milícia armada para promover a supremacia branca dos Estados Unidos, em que negros e latinos deveriam ser eliminados do mapa.
Antes de sacar sua parte do prêmio, JoLayne tem sua casa invadida pela dupla racista. Espancada brutalmente, tem seu bilhete roubado. Os ladrões fazem tudo certo, pensam nos mínimos detalhes, só não levam em conta a persistência de JoLayne em sua missão de salvar a indefesas tartaruguinhas que habitam a mata ameaçada. Com a ajuda de um repórter branco, ela parte no encalço dos ladrões na tentativa de reaver o bilhete premiado. O jornalista sonha com uma grande reportagem.
Daí para frente é só riso. Uma perseguição hilária tem início com um amplo desfile da fauna humana mais bizarra da sociedade americana. A história está em Sorte Sua, novo romance do escritor norte-americano Carl Hiaasen lançado pela editora Companhia das Letras.
Sorte Sua pode ser descrito como um enorme barracão de lugares-comuns. Mas o tom narrativo que Hiaasen imprime à história, confere ao romance um caráter satírico e um humor cáustico. O painel retratado mostra aquilo que a sociedade americana é e não consegue mais esconder: um império kitsch habitado por vários tipos de idiota.
Para se ter uma idéia, a pequena cidade onde vive JoLayne sobrevive do turismo religioso. O local abriga uma milagrosa Virgem Maria de fibra de vidro que chora lágrimas perfumadas. Trata-se de um estátua com um sistema de encanamento interno que faz com que a santa chore, como milagre divino, diante dos romeiros. Um verdadeiro caça-níquel. Para incrementar a fama da cidade, há uma moradora que reza diariamente ajoelhada diante de uma mancha de óleo no asfalto. A mancha se parece com a imagem do rosto de Jesus.
Os bandidos dementes e atrapalhados, Bodean e Chub, são um capítulo à parte. Após roubarem JoLayne, compram um arsenal de armas e fundam a milícia chamada I.R.B. (Irmandade dos Rebeldes Brancos). Em pouco tempo descobrem que por onde passam todo mundo conhece a Irmandade dos Rebeldes Brancos. Não a milícia fundada por eles, mas uma banda de funk formado por cinco jovens negros. Então resolvem mudar o nome para C.A.B. (Clarins Arianos Brancos). Isso depois que o terceiro e único membro do grupo tatuou no braço, com orgulho, as iniciais I.R.B.
Desde as primeiras páginas de Sorte Sua Carl Hiaasen deixa claro que a história terminará com final feliz, que JoLayne recuperará o bilhete e se apaixonará por seu ajudante, o repórter Tom que por sinal está se divorciando da esposa. As peripécias dos personagens nas situações mais absurdas e as características lunaticamente americanas de cada um, é o que dá sentido ao romance. Um sentido satírico.
Carl Hiaasen faz relativo sucesso entre os leitores brasileiros. Sorte Sua é seu quinto romance publicado no Brasil depois de Caça aos Turistas (1993), Chuvas e Trovoadas (1996), Strip-tease (1994) e Dupla Armação (1998), todos da Companhia das Letras. Todas suas histórias são ambientadas na Flórida, o lugar em que os brasileiros abonados adoram passear e comprar baldes de cultura kitsch. (M.L.)
Sorte Sua de Carl Hiaasen, Editora Companhia das Letras (telefone 11/3846-0801), tradução de Celso Nogueira, 416 páginas, R$ 35,00.


