São Paulo, 12 (AE) - Se você fosse convidado para definir os Bálcãs com uma única expressão, provavelmente falaria em "barril de pólvora". Pois é exatamente esse o título do filme escolhido para abrir o ciclo "Delírio Balcânico", na Sala Cinemateca. "Barril de Pólvora", dirigido por Goran Paskaljevic, passa amanhã (13) às 22 horas. A partir de sexta-feira, o ciclo prossegue, até dia 30, com mais seis títulos: "Bela Aldeia, Bela Chama", de Srdjan Dragojevic; "Underground", de Emir Kusturica; "LAmerica - o Sonho de Chegar", de Gianni Amelio; "Antes da Chuva", de Milcho Manchevski; "Bem-Vindo a Sarajevo", de Michael Winterbotton; e "Um Olhar a Cada Dia", de Theo Angelopoulos.
A novidade do ciclo é Barril de "Pólvora", ainda inédito no Brasil. Ele tem essa pré-estréia amanhã na Cinemateca
outra no sábado, e entra em circuito no dia 21. É profundamente original. Paskaljevic é sérvio. Como se sabe, a maior parte das obras artísticas sobre os conflitos que começaram com a dissolução da antiga Iugoslávia centram sua atenção na Bósnia. Compreensível, porque foi lá que se concentraram primeiro as atrocidades, agora deslocadas para Kosovo. Gente comum - Paskaljevic não adota um ponto de vista do nacionalismo sérvio estrito, nem se atreve a defender qualquer tipo de "purificação étnica", eufemismo que tem designado o genocídio. Mesmo porque seu filme é uma adaptação da peça de Dejan Dukovski, que é macedônio. A história reúne pessoas comuns
numa Belgrado desvairada e as coloca em situação de conflito. Tudo conspira para que a temperatura entre elas aumente de maneira insuportável. Há o ônibus que não sai no horário, o amigo que confessa ter dormido com a mulher do outro, o policial que abusou do poder e depois levou o troco de sua vítima, etc.
Cada fotograma respira violência e todas as cenas são rodadas à noite. Em uma única noite. Não se trata propriamente de simbolismo, mas quase de uma constatação natural. Numa cidade cercada, isolada, num país quase fora do mundo, o auto-centramento torna-se letal e as trevas passam a ser a paisagem natural. As pessoas se entredevoram. Procuram defender-se, escondem-se, evitam os outros. Mas quando o contato é inevitável, o que ocorre é mediado por uma fúria quase animal. Um retrato cruel, tirado de um mosaico de existências assustadas.
O drama é, aqui e ali, aliviado pela ironia e mesmo pelo tom cômico. A guerra, digamos assim, "oficial", é filtrada pelo noticiário, por uma TV ligada num bar ou pelo rádio do táxi. Como uma guerra se superpondo a outra - a dos povos contra povos, a dos indivíduos contra indivíduos. Metáfora - "Underground", de Emir Kusturica, é, talvez, a melhor metáfora do caos balcânico. Isso porque deriva do feliz encontro entre uma situação de anomia e uma personalidade anárquica. Kusturica (de Vida Cigana e Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios) reflete sobre as últimas décadas de história do seu país, contando uma fábula fantástica - a de gente que cria uma microssociedade num porão e ignora o fim da 2.ª Guerra Mundial.
Kusturica é bósnio, defende a Iugoslávia unificada, como existia no tempo de Tito, com a convivência das diversas etnias. Foi considerado traidor por seu próprio povo. Desiludiu-se e ameaçou deixar de filmar. Felizmente não cumpriu a promessa e apresentou ano passado, no Festival de Veneza, outro filme estupendo, "Gato Preto, Gato Branco", ainda inédito no País. Para exorcizar os temas políticos, voltou-se para o que mais gosta, a vida dos ciganos, a utopia do povo livre, sem lei, sem fronteira, que tem o céu estrelado como teto dos seus sonhos. Com sua defesa de um modo de vida independente, continuou fazendo política - ainda que por outros meios.
Com "Bela Aldeia, Bela Chama", Dragojevic segue a linha de Kusturica. Narrativa altamente alegórica, tom operístico, muita música. A história é a de dois amigos, um sérvio, outro muçulmano. Meninos, eles brincam perto da entrada de um túnel, que deveria unir Belgrado a Zagreb, sonho que começa a desmoronar na era pós-Tito. Mais tarde, são vistos na guerra, em campos opostos. Alegoria, sim, mas, segundo o diretor
baseado numa série imensa de casos reais. Não há por que duvidar dele. Itália - O ponto de vista italiano não poderia ficar fora de um panorama dos Bálcãs. Afinal, a Itália é geograficamente próxima e tem recebido (muito a contragosto) levas de refugiados albaneses ao longo dos últimos anos. "LAmerica - o Sonho de Chegar", de Gianni Amelio, é um fervoroso mea culpa. Com sua dramaturgia madura, tensa, o diretor mostra, como por um silogismo estético, que os italianos que emigraram no passado são como os albaneses do presente. Ninguém deixa sua terra porque quer. Vai embora porque não tem outra alternativa. Circularidade - O macedônio Milcho Manchevski é autor de "Antes da Chuva", belo exercício de narrativa circular à maneira de Borges. Num episódio, monges escondem um guerrilheiro num convento. No segundo, fotos da primeira história vão parar em Londres, onde uma mulher se envolve com um fotógrafo oriundo da Macedônia. No terceiro, ele decide voltar à sua terra natal, como se o destino o esperasse por lá, mas não da maneira como pensa. O desfecho é mais que surpreendente - reserva ao espectador um daqueles descentramentos violentos, um tranco poético próprio do melhor cinema.
Manchevski, comentando seu filme, diz que não pretendeu fazer uma obra política. É originário de uma região menos atingida pelo conflito e vive nos Estados Unidos. Ainda assim, "Antes da Chuva" é um belo comentário sobre a ex-Iugoslávia e seus conflitos. Como dizia Trotski: "Você pode não se interessar pela guerra, mas a guerra se interessa por você".
Com "Um Olhar a Cada Dia", o grego Theo Angelopoulos embarca numa viagem dolorosa pelos Bálcãs. Como um Ulisses contemporâneo, visita um continente em escombros. O pretexto é a viagem de um cineasta (Harvey Keitel) atrás de um filme perdido. Na verdade, um road movie de reencontro consigo mesmo e com sua cultura - mesmo que esta seja uma cultura dilacerada.
"Bem-Vindo a Sarajevo", do britânico Michael Winterbottom, mostra uma equipe de repórteres que cobre a guerra e se interessa particularmente pelo destino de meninos órfãos. O diretor evita o sentimentalismo e aposta mais no impacto de cenas fortes, secamente descritas. Nenhum dos filmes deixa de ter interesse. São títulos fortes e há pelo menos duas obras-primas entre eles, "Underground" e "Um Olhar a Cada Dia". Qualidade à parte, testemunham a tentativa dos artistas em compreender a realidade trágica da guerra. Que, provavelmente
é, no limite, irredutível a qualquer forma de compreensão racional.

mockup