DELICADO TOQUE DE HUMOR
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de março de 2001
Leandro Calixto TV Press 
Interpretar personagens afeminados está virando especialidade de Luiz Salém. O estudante de estilismo Ávila em Um Anjo Caiu do Céu é apenas o terceiro trabalho do ator na tevê, mas já é o segundo papel consecutivo no gênero o primeiro, foi o cabeleireiro Beny em Anjo Mau. O ator carioca de 36 anos confessa que chegou a ter um pouco receio em ficar estigmatizado. Mas, com o passar do tempo, percebeu que uma maneira de deixar personagens deste tipo leves era buscar um tom engraçado. O gay está muito ligado ao imaginário do humor brasileiro. É o que procuro fazer com o Ávila ao adotar um tom cômico para o personagem, explica. Ele garante que nos dois trabalhos não sofreu qualquer tipo de reação negativa por parte do público nas ruas. Pelo contrário, as pessoas me respeitam muito, completa Salém.
O ator também se preocupa em não transformar o personagem numa reles caricatura. Para ele, tanto o Beny quanto o Ávila não são gays afrescalhados. Procuro fazer o personagem de uma maneira bem natural e sem qualquer tipo de exageros, acredita o ator. Recentemente, houve uma cena, durante o baile de Carnaval da boate LZ 129, em que o Ávila se fazia passar pelo trambiqueiro Paulinho, papel de Cássio Gabus Mendes, quando foi forçado a dar um beijo em Machadão, interpretada por Bel Kutner. Tive muito cuidado com esta cena. Não queria demonstrar que o Ávila estava com nojo daquele beijo, pondera. O espanto de Ávila se deve porque na trama de Antônio Calmon, Paulinho se passa por Selmo de Windsor, um estilista gay que, na verdade, alterou a identidade para se dar bem na Faculdade de Moda. O Ávila ficou chocado ao ver uma mulher beijando um homem que se diz gay, justifica.
Atuar numa novela de Antônio Calmon, aliás, era um projeto na carreira de Luís Salém. Principalmente porque o autor sempre explora as novas tendências do mercado de moda em suas tramas. O estilo do personagem, inclusive, vem interferindo na maneira de Salém se vestir. Antigamente, ele adotava um estilo mais despojado e usava com mais frequência calça jeans e camisa branca. Agora, estou dando mais atenção para a maneira de se vestir, mas sem cometer exageros, explica o ator, que cortou e clareou os cabelos para fazer este trabalho.
A novela Um Anjo Caiu do Céu é a terceira na carreira de Luís Salém. Além de Anjo Mau, o ator atuou também em Salsa & Merengue, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, que marcou sua estréia na Globo. Na trama, ele fazia o gerente de supermercado Lázaro. Este trabalho foi sensacional porque marcou a estréia do Miguel como autor. Foi um pacote de amigos envolvidos num projeto, enaltece o ator. Mas, antes de participar da produção de Miguel Falabella, Luiz Salém fez a minissérie Desejo, de Glória Perez, na própria emissora. Ele interpretou o jornalista Penito. Mas foi uma participação rápida, recorda.
Com 16 anos de carreira, Luiz Salém ganhou projeção ao integrar grupos de teatro que faziam humor. O ator lembra que faz parte da terceira geração de humor escrachado no teatro carioca, iniciado pelo o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone na década de 70. A formação original do Asdrúbal revelou nomes como Regina Casé, Luiz Fernando Guimarães, Evandro Mesquita, Patrícia Travassos, Prefeito Fortuna e Hamilton Vaz Pereira. Depois, surgiram Miguel Falabella e Guilherme Karam com o chamado humor besteirol. Luiz Salém apareceu juntamente com Márcia Cabrita e Aluísio de Abreu ao encenar o Subversões 1. Aquele espetáculo foi um divisor de águas em nossas carreiras, enfatiza.
Na mesma época, Salém também integrava a turma teatral do Circo Voador, nos Arcos da Lapa, Zona Central do Rio. O movimento ganhou reconhecimento da classe teatral e também musical de todo o país. Foi ali que surgiram grupos como Barão Vermelho e Blitz. Os seguidos anos no Tablado foram fundamentais para consolidar a carreira de Luiz Salém. No teatro, aprendi a ter disciplina e a realmente respeitar a minha profissão, valoriza o ator.
Em meados da década de 80, Luiz Salém atuava como divulgador de produções teatrais e musicais no Rio de Janeiro. Era uma maneira de bancar suas despesas com cursos de teatro e também com a faculdade de Jornalismo na Universidade Federal do Rio de Janeiro, abandonada no sexto período. Era duro como um coco. E, como era bastante descolado, arrumava alguns bicos para fazer, recorda o ator. Ele chegou a trabalhar como produtor e divulgador de peças de Luiz Fernando Guimarães e da cantora Marisa Monte, em seus dois primeiros CDs.
Luiz Salém atuava como divulgador juntamente com a atriz Márcia Cabrita, com quem dividia as despesas de um apartamento. No transcorrer dos anos, o negócio foi crescendo, mas Salém e Márcia resolveram deixar o mercado de produção. Queríamos atuar. Então, largamos tudo, lembra, nostálgico. A partir daí, Salém começou a produzir peças com o ator Aluísio de Abreu. Os dois montaram vários espetáculos no estilo besteirol. Para o segundo semestre deste ano, eles vão produzir e atuar na peça O Pênis Responde, uma montagem que se propõe a dar uma resposta ao espetáculo Monólogo da Vagina, de Miguel Falabella. É uma peça que vai mostrar na prática e na teoria todos os problemas dos homens com seu pênis, adianta Salém, que pretendia que Falabella escrevesse a peça.


