Iara Lessa
De Londrina
Especial para a Folha2
O difícil caminho da mulher na sociedade. Cuidar de filhos, marido, casa, profissão, compartilhar problemas e soluções, comparecer com uma parte do orçamento familiar, enfim, matar muitos leões por dia para provar que é capaz. Esse caminho, comum à maioria das mulheres de nosso tempo, também faz parte do cotidiano da artista plástica primitivista, Lourdes de Deus, que expõe seus trabalhos na 14ª Mostra Afro-Brasileira Palmares, que acontece em Londrina até o dia 11 de dezembro.
Lourdes começou a pintar há dez anos, escondida do marido Waldomiro de Deus, estrela da mostra e uma das referências mundiais em arte naif, e dos seis filhos. ‘‘Quando começei a pintar Waldomiro já era um artista de reconhecimento internacional. Meu filho, Amomm Hebrom (que também é primitivista e cujos trabalhos estão na mostra) também pintava e estava começando a fazer sucesso. Pensei: todo mundo vai achar que eu comecei a pintar só para imitá-los’’, relembra.
Mas a insegurança de Lourdes estava prestes a ir pro espaço. Depois de pintar e esconder os quadros, a artista ‘‘aspirante’’ tomou coragem e mostrou suas primeiras obras para amigos mais íntimos. Todos gostaram. Então chegou a grande prova: mostrar para o mestre e marido. Waldomiro aprovou e a crítica também. ‘‘No mesmo ano que comecei a mostrar minhas obras, consegui expor no Salão de Arte Naif de Piracicaba, um dos eventos mais importantes na área. Foi o maior sucesso. No ano seguinte, fui convidada de novo e ganhei premiação de melhor obra. Foi uma vitória, já que pude mostrar que sou uma artista independente, que não faz cópias do trabalho do marido ou do filho’’, desabafa.
Aliás, Lourdes também brilha entre as poucas mulheres que representam hoje a arte naif tanto no Brasil como no Mundo. ‘‘Ultimamente está aumentando, mas ainda são poucas as mulheres naifs. Como em toda área, na arte também temos que provar nosso valor, provar que somos capazes, que não somos fogo de palha. Mas o ambinete artístico é bem generoso e não tem muitos preconceitos. Só precisamos ocupar mais este espaço’’, revela.
Preocupada em retratar o movimento e fissurada em noivas, Lourdes aproveita as madrugadas para registar, em cores fortes (sua principal característica) suas impressões do mundo. ‘‘Gosto de pintar noivas de branco. Casei em plena década de 70, de vestido roxo, com uma cerimônia hippe, que aliás era um pouco o que esperavam da gente, já que o Waldomiro era um artista e, casamento de artista tinha que ser meio diferente, mas acho que no fundo a mulher sonha um pouco com este momento, que acaba sempre se transformando em uma festa. A união entre um homem e uma mulher é maravilhosa, e o vestido de noiva mostra imediatamente isto. Na verdade, gosto mesmo é de pintar festas e alegria, e casamento é um bom exemplo disso’’, revela.
Outro tema que Lourdes adora retratar são as procissões. Aquelas imensas filas de gente em busca de uma redenção, um pedido ou apenas um agradecimento, toma conta do imaginário da artista. ‘‘Fico impressionada com as procissões. Um movimento só. Gente andando, velas acesas, estandartes sendo carregados, imagens de santos, orações, lágrimas, agradecimentos. Fico pensando em cada pessoa que compõe aquela fila sagrada. O que será que ela pediu? É uma maravilha.’’
Mas a artista, que ficou fascinada por Londrina, não tem preconceito com tema. ‘‘Andei pelas ruas de Londrina e fiquei atônita. A cidade é linda e me deu um monte de idéias. Faz tempo que quero pintar uma espécie de altar, queria uma coisa diferente, com mais vida, mais cor e encontrei exatamente o que queria na catedral da cidade. As árvores floridas também me encheram de inspiração’’, conta.
Além de inspiração conseguida em Londrina, Lourdes prepara-se para sua primeira exposição individual, que deve acontecer em São Paulo, na Sociedade Hebraica, no começo do ano. ‘‘A exposição poderia ter acontecido mais cedo, mas ser dona de casa, secretária do marido, mãe de seis filhos, motorista da família, e um monte de outras coisas que uma mulher se transforma ao longo da vida, fez com que eu fosse adiando um pouco, mas é assim mesmo. Você vai arrumando tempo pra pintar, arrumando tempo pra expor e, quando menos espera, seu trabalho acontece. Pintar é maravilhoso, um momento tão íntimo e único que pintaria mesmo que não fosse para expor, mesmo que fosse para continuar escondida’’, conta Lourdes, que, ainda bem, decidiu mostrar suas tintas.

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