O universo infantil tem espaço e flexibilidade suficientes para abrigar outros poetas e linguagens além da Arca de Noé de Vinicius de Moraes ou as histórias de Monteiro Lobato. Aliás, a linha que divide o infantil do adulto é tênue, talvez inexistente. ''Eu Passarinho, Eles Passarão...'' é o espetáculo cênico musical que será apresentado hoje e amanhã, no Palco Petrobras, dentro da programação para crianças, pela Companhia Megamini, de São Paulo.
Dois atores, Gabriel Guimard e Nora Prado, representam o poeta e a poesia, dando vida aos personagens Quintana e Lili, inspirados no livro ''Lili Inventa o Mundo'', uma organização de poemas assinados pelo poeta gaúcho Mário Quintana. Aliás, o verso que dá nome ao espetáculo foi extraído do Poeminha do Contra, que o escritor compôs quando foi recusado pela Academia Brasileira de Letras.
Lili é uma garota que quer encantar o mundo, e o menino Quintana sonha em ser poeta. Ao longo de muitas aventuras, os dois descobrem que são a mesma pessoa, ou seja, indissociáveis, como a poesia e o poeta. São dezoito poemas musicados por Laura Finocchiaro, apresentados por pela dupla de atores que são acompanhados por três músicos.
''É uma pesquisa que a companhia tem realizado de uns anos pra cá: esse encontro entre música ao vivo, poesia, movimento e teatralidade. É uma apresentação para o público infantil e adultos inteligentes e sensíveis'', enfatizou Guimard, que também é reponsável pela direção e iluminação do espetáculo.
Militante da difusão do teatro infantil, Guimard considerou secundária a preocupação com essa dicotomia criança e adulto. ''Sempre as pessoas ficam pensando se a criança vai entender ou não. Ela vai entender por outro viés, além de dialogar com o pai, educador ou quem estiver ao lado dela'', disse.
Além do amplo trabalho de pesquisa que o diretor desprende sobre o mundo dos pequeninos, ele aprende no dia-a-dia em sua própria casa. ''Eu tenho a prática por ter dois filhos pequenos, de 4 e 2 anos. Acaba sendo um laboratório total. Tudo que eu falo eu tento refletir dentro do discurso e vejo como funciona ali na hora. A minha batalha é essa: mostrar para a criança desde cedo, a poesia e outras linguagens, que ela vai crescer como se aquilo tudo fosse natural'', revelou.
Para o Guimard, o teatro infantil tem galgado passos qualitativos e quantitativos no Brasil. ''Está havendo uma preocupação com a reflexão dentro do teatro infantil, que é uma coisa que caminha junto com a questão do fazer. O artista, de uma forma em geral, deve se empenhar em uma pesquisa que vá além da leitura, como intercambiar visões. Isso ocorre pouco'', acrescentou.
Falando ainda de intercâmbios, foi lançado ontem, no Espaço Petrobras, o Fórum Cultura Infância - Londrina, uma parceria do FILO com a Rede Cultura Infância (RCI), uma rede virtual que conta com a participação de cerca de 1.300 pessoas de todo o Brasil, ligadas ao universo da criança. ''São ferramentas necessárias para mudar a visão do fazer do artista e que não morra aqui, sendo uma iniciativa frequente, gerando um movimento que agregue vários grupos de todos os segmentos artísticos, até para discutir e propor políticas públicas de cultura'', ponderou Guimard.

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