Déja vu de Almodóvar em Cannes
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terça-feira, 17 de maio de 2016
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>De Cannes, especial para a Folha 2 
Era uma das estreias mais aguardadas, depois do fracasso de sua tresloucada comédia "Os Amantes Passageiros". Longe da competição há anos, Pedro Almodóvar voltou a disputar a Palma de Ouro com seu vigésimo longa metragem e mais um de seus melodramas tão familiares aqui em ambos os sentidos. A exibição, no entanto, frustrou a expectativa geral, e "Julieta" revelou-se um filme que apenas repõe as fixações de um cineasta que parece ter esquecido o quanto foi bom e revelador em trabalhos como "Todo Sobre minha Madre", "Fale com Ela", "Abraços Partidos" e "Volver", para citar apenas os títulos que se conectam com a história selecionada pelo festival.
"Julieta", com roteiro inspirado em três short stories da canadense Alice Munro, é outra trama almodovariana predominantemente feminina e existencial, sobre os desencontros entre mãe e filha. Desamor, perda, ausência, incomunicabilidade, culpa, reencontro, pacificação: a recorrência a essas dolorosas variações sobre o mesmo tema faria do cineasta espanhol um campeão de audiência do horário teledramatúrgico das oito, caso seus filmes migrassem para a telinha.
"Julieta" é filme que se assiste com algum interesse, mas sem entusiasmo. Estranhamente, aquela densidade psicológica que Almodóvar sempre imprimiu em suas sofridas personagens está diluída, frouxa, lavada. A força emocional do vinculo entre mãe e filha é sustentada por artifícios melodramáticos. A mãe Julieta, vivida por duas boas atrizes (Emma Suárez e Adriana Ugarte), e a filha Antía são personagens planas, pouco nuançadas. A construção das relações é débil, a visão de conjunto é esquemática, os diálogos estão longe dos melhores momentos de Almodóvar. O diretor, que concorre à Palma pela quinta vez, sempre afirmou que nunca quis ganhar o premio. Vai ficar sem ele mais uma vez...
POESIA FEITA DE IMAGENS (VICE VERSA?)
Os Estados Unidos não poderiam estar melhores representados, em busca da Palma. Assim como o candidato alemão da diretora Maren Ade, "Paterson", de Jim Jarmusch, é outro que pode levar daqui recompensas. O mínimo que se dizer é que é um filme idiossincrático, porque seu diretor assim é são deles as avis raras (e cults, invariavelmente) "Daunbailó", "Estranhos no Paraíso", "Flores Partidas". E que se tome isso como o inicio do elogio para uma obra irretocável do ponto de vista pessoal e transferível (felizmente), pequena na aparência com seus mínimos recursos materiais, mas enorme em sua ambição em busca do lirismo, em busca da representação plástica das raízes do verso.
De que maneira a linguagem visual pode representar a criação da poesia escrita?
Jarmusch não só propõe esta utopia como a transforma em epifania contemplativa, em quimera de rara beleza. O Patterson do filme é um motorista de ônibus na cidade de Paterson, Nova Jersey. Apesar do corpo atlético do (ótimo) ator Adam Driver ocupar o personagem, ele é frágil e sutil, embora ex-marine detalhe essencial para compreender sua personalidade reservada. Vive um casamento harmonioso à base de amor profundo. Sua mulher se ocupa da casa, do bulldog do casal, faz cupcakes e quer ser cantora country Paterson viaja na imaginação e escreve versos diariamente, durante as folgas no trabalho. O filme tem uma estrutura que apela constantemente à "rima-visual-que-não-rima". E para melhor escrever sobre ele seria preciso ter à mão (aos olhos) as imagens que Jarmusch imprimiu no suporte digital. Até aqui, um dos melhores momentos do festival.
Algumas decepções, nas jornadas de cada dia. Como dois filmes dirigidos por mulheres, sobre mulheres eles são maioria este ano, em todas as seções. Da francesa Nicole Garcia nunca se espera grandes filmes, e sua presença é sempre prova da condescendência da seleção para com a produção francesa. Este ano ela assina o precário "Mal de Pierres", alusão às cólicas renais que levam a já surtada (e casada) Marion Cotillard a uma clinica suíça, onde conhece o oficial Louis Garrel, que se recupera de doença renal grave. Os patrícios vaiaram o filme, o que deve significar alguma coisa. A inglesa Andrea Arnold, que já beliscou prêmios secundários por aqui, trouxe o road movie "American Honey", sobre grupo de jovens em vilegiatura pelo deep south dos EUA. Material já visto antes, e bem melhor realizado também. A alemã Maren Ade, com seu "Toni Erdman", tem lições de sobra para dar às duas colegas.


