Degrau por degrau, até o infinito
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 19 de dezembro de 2001
Rubens Pileggi<br>De Londrina - Especial para a Folha 2 
Fazíamos a pré-seleção das fotos enviadas para o 58º Salão Paranaense (Fernando Bini, Nilza Procopiak, Walton Hoffman, Violeta Franco e eu), quando nos chegou às mãos o trabalho de Luís Carlos Brugnera. A princípio parecia algo banal (não deixa de sê-lo) e quase desclassificamos a ''Escada Infinita'' - parte de um projeto maior do artista chamado de ''Casa Conceitual'' - pois afinal se tratava ''apenas'' de uma escada feita de espuma de colchão, para ser colocada no canto de uma parede, cujos degraus, aos poucos, vão diminuindo, até se tornarem mínimos. -''Que acham disto?'' perguntei com indiferença. Nilza olhou e, de pronto, disse: -''É uma escada que leva ao nada. Impossível ser usada''. Desde então, essa ''escada'' não me sai mas da cabeça!
Já instalada no espaço expositivo, ela impõe respeito pelas dimensões e técnica empregada para sua confecção. Em sua simplicidade formal e material, concentra força poética e densidade conceitual, envolvendo uma série de significados que remetem diretamente às idéias e aos ideais de ascese e utopia. E, ao contrário do que se poderia imaginar, sua presença em relação ao corpo do espectador torna-a surpreendentemente consistente. Da foto da obra para sua presença construída, as questões levantadas pelo trabalho de Brugnera foram se ressaltando, cada vez mais.
Para quem leu Cioran, ''História e Utopia'', ver a ''Escada Infinita'' é como estar diante da síntese do livro, uma vez que uma de suas possíveis interpretações é a de que ela se dirige ao infinito, ao eterno, ao ''para sempre'', mas é impossível subi-la. Não há como chegar à transcendência, senão pela representação. A ''escada'' desilude. Mas, ao desiludir, nos devolve à realidade, agora já presos a uma consciência que antes não percebíamos, a da finitude de todas as coisas.
Por isso, a comparação com outros trabalhos de arte, como a instalação ''Utopia'', de José Resende, feita há alguns anos, na Casa das Rosas, em São Paulo, não é de todo desprovida de sentido. Lá, em uma das salas, ventiladores atrás de lençóis brancos traziam a idéia fantasmagórica de um movimento parado (se é que é possível pensar tal figura de linguagem). Aqui, algo se oferece como caminho à ascensão, mas é incapaz realizá-lo. Coisas que só a arte pode mostrar!
Podemos agrupá-la também à outra escada de espumas, feita por Eduardo Coimbra, no Parque Laje, no Rio de Janeiro (esta, frontal, ligando uma base a uma abertura) e também aos desenhos do ucraniano Ilya Kabakov, em uma série de desenhos de escadas altíssimas, em direção ao céu. Mas na ''Escada Infinita'' não há esta pureza. Como não havia pureza na escada espiral de ferro colocada no centro de uma sala vazia, com um espelho no teto e outro no chão, feito em uma ocupação, em evento acontecido em São Paulo, chamado ''Casa Blindada''.
Se nos anos 60 e 70 desejava-se uma arte que permitisse a participação do espectador, Brugnera, ao invés de simplesmente aderir ou contrariar esta idéia, nos presenteia com a possibilidade de, ao menos, humanamente, subir em todos os degraus de sua obra - até o infinito - pela imaginação.
Por tudo isso, a premiação desse trabalho é um reconhecimento do quão longe pode-se ir através da arte. Quem quiser conferir esta e outras obras deve visitar o Salão Paranaense que será inaugurado hoje à noite, no Museu de Arte Contemporânea, em Curitiba. A mostra permanece aberta ao público até 31 de março de 2002. Pela sua tradição no cenário das artes plásticas do Brasil e pela dedicação com que este evento é realizado, vale a pena conferir a produção contemporânea dos artistas selecionados.
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