DEGAS à mostra
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de maio de 2006
Mario Gioia<br> Folhapress 
Artista que serve de ponte para a modernidade e um obcecado pelo movimento. As duas definições explicam o eixo da mostra Degas - O Universo de um Artista, aberta hoje para convidados e amanhã para o público no Masp (Museu de Arte de São Paulo), com cerca de 200 obras do francês Hilaire Germain Edgar de Gas (1834-1917), o filho de um banqueiro que passou a ser conhecido na história da arte apenas como Degas.
Romaric Surgel Büel, francês radicado no Rio, um dos curadores da mostra, utiliza as duas idéias como norte de uma exposição que, indubitavelmente, tem como destaque as 73 esculturas de bronze que representam bailarinas. Embora seja uma das preciosidades do acervo, o conjunto raramente é exposto no museu. Certamente a mostra foi montada para dialogar com esse rico conjunto, e também dá relevo a outras excelentes obras do Masp, afirma Büel, que já assinou algumas das exposições de artes com grande êxito de público no país, como a de Rodin, em 1996, na Pinacoteca do Estado, em SP, e a de surrealismo, em 2001, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio. A exposição custou cerca de R$ 3 milhões e tem como outra curadora Eugênia Esmeraldo.
O Masp é um dos únicos museus do mundo a contar com a série completa das 73 bailarinas o DOrsay, o Metropolitan de Nova York e o Carlsberg Glyptotek, em Copenhague, são os outros. Degas apenas apresentou em vida uma dessas obras: a Bailarina de 14 Anos, ainda em molde em cera, mas com saia, corpete e uma peruca. Ele queria aproximar a escultura do cotidiano com o uso desses materiais, mas foi bastante criticado ao exibi-la, afirma Ana Magalhães, especialista na obra do francês e consultora da mostra. A série foi fundida em bronze de 1919 a 1932, após a morte do seu autor.
Mas a mostra não vive só de suas famosas bailarinas. Conta com obras de grande qualidade de museus como os parisienses DOrsay, Picasso e Gustave Moreau e o londrino National Gallery. E esses trabalhos fazem diferença exibidos lado a lado com obras pertencentes ao Masp (como a bela O Vestido Estampado, de Vuillard), mais conhecidas do público brasileiro.
Apesar de sua formação clássica que o ensinou a admirar obras de Mantegna, Rafael, Van Dyck e outros, copiando suas telas no Louvre , Degas tem peso reconhecido nas artes plásticas por sua modernidade. Ele retrata pessoas comuns, como cantoras de cabaré, passadeiras, jóqueis, freqüentadores de bares e bordéis. Também os coloca em ambientes que prenunciam o mundo do século 20, como as chaminés industriais de Cavalheiros Antes da Partida. Faz a ponte do impressionismo para a modernidade, avalia Büel.
Organizador de salões impressionistas, admira e é influenciado por alguns colegas de movimento em Princesa Pauline de Metternich, o fundo da tela com motivos orientais o aproxima de Van Gogh, por exemplo. Mas Degas é peculiar por sua habilidade em retratar cenas com movimento.
Seu olhar é como o de uma câmera fotográfica. Ele congela e reproduz o movimento das figuras com grande apuro. Não à toa também se interessou pela nascente arte fotográfica, diz Büel.
Nesse ponto, as bailarinas foram inspiração constante para a observação de Degas. Algumas telas presentes na mostra, como Dançarinas de Balé e Dançarinas Amarelas, evidenciam a obsessão e o talento do artista frente ao movimento. Cavalos também serão outra fonte de inspiração de suas telas, em preocupações plásticas que o aproximam dos precursores do cinema, como Eadweard Muybridge (1830-1904).
Todas essas inovações não fizeram de Degas um detrator de obras clássicas. Admirava Ingres (1780-1867) e, quando o mestre neoclássico lhe disse para sempre pintar de memória, seguiu o conselho durante sua trajetória. Ao contrário dos impressionistas, que adoravam pintar ao ar livre, Degas era um artista de ateliê. Seu fascínio por Ingres era tão grande que, quando já estava cego, pediu para tatear uma tela do pintor que pertencia à sua coleção, conta Büel.
O apreço por obras clássicas e de contemporâneos fez de Degas um grande colecionador. Alguns de seus artistas preferidos têm telas no Masp, como Anthony van Dyck (1599-1641), cujo Retrato da Marquesa Lomellini, com os Filhos em Oração, faz par com seu Estudo de Mãos.
Serviços:
- Exposição ''Degas - O Universo de um Artista''. Abertura hoje para convidados e a partir de amanhã para o público. De terça a domingo, das 11 às 18 horas (bilheteria fecha às 17 horas), no Masp (av. Paulista, 1.578, SP, 11/3251 5644), em São Paulo. Ingressos: de R$ 7,00 a R$ 15,00


