Defender o indefensável
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 02 de dezembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
O diretor francês de origem iraniana Barbet Schroeder vem demonstrando, ao longo de uma extensa filmografia (''O Reverso da Fortuna'', ''Mulher Solteira Procura'', ''O Beijo da Morte'', entre outros), que o gênero humano tem bem maior intimidade com o Mal, o que nos tornaria ruins pela própria natureza. Visão polêmica, evidente. Marca registrada, aliás, de sua carreira.
Qual é exatamente o comportamento do Mal? Mais: o que pensa o Mal? Como ele se ramifica? Estas e outras inquietantes questões surgem à medida que o espectador assiste - entre fascinado e estarrecido - o documentário ''O Advogado do Terror'', que Schroeder mostrou fora de concurso no Festival de Cannes de 2007, e que agora sai em vídeo no Brasil.
Se alguém contasse em forma de ficção, esta história seguramente resultaria incrível, inverossímil, artificiosa e rebuscada. Mas o que aqui se narra é real, mesma que se imagine estar diante de uma hipnótica novela política que observa cuidadosamente as nuances mais secretas do terrorismo contemporâneo. Tudo gira em torno da figura do inquieto e inquietante advogado francês Jacques Vergès, que justifica diante da câmera a defesa que fez de personagens tão incômodos como o terrorista Carlos, o Chacal, o nazista Klaus Barbie, dito ''O Açougueiro de Lyon'', ou o sanguinário líder do Kmer Vermelho do Cambodja, Pol Pot, entre outros signatários do rol de atrocidades contra o gênero humano.
Comunista, anticolonialista, extremista de direita? Que convicções morais pode ter Jacques Vergès? Barbet Schroeder nos conduz pelas sendas mais escuras no intuito de iluminar o mistério que se esconde por trás desta enigmática figura. Durante a guerra da Argélia, Vergès era um jovem advogado de origem ''colonizada'' que abraçou com sincero ardor a causa anticolonial. Defendeu Djamila Bouhired, feroz terrorista dos quadros da FLN argelina. Obteve sua liberdade, casou com ela e tiveram dois filhos.
De repente, quando estava no auge de uma fulgurante carreira, desapareceu por oito anos sem deixar qualquer rastro. Quando retornou desta ausência misteriosa e nunca satisfatoriamente explicada, passou a defender terroristas de grosso calibre e ideologias diversas, como a mulher de Carlos, o Chacal, Magdalena Kopp (com quem também manteve um romance), Anis Naccache (OLP) e o carrasco Klaus Barbie.
Prescindindo de qualquer voz narrativa em off, como reza o moderno documentarismo, Schroeder constrói seu relato com o testemunho de personagens que falam de vivências múltiplas e os articula com todo tipo de materiais de arquivo. Através de um deslumbrante exercício de montagem, ele convida (intima, alguém poderia dizer não sem razão) o espectador a formar sua própria opinião sobre as complexas convicções deste homem contraditório e fascinante, que conhece como ninguém o funcionamento do fenômeno terrorista.
Schroeder conseguiu que Vergès lhe concedesse várias entrevistas. Daí surge este retrato poliédrico, feito de luzes e sombras, no qual o homem se retrata a si mesmo: com arrogante autosuficiencia, com astuta agressividade, com muitas contradições e enorme lucidez. A impressão que se tem é que Schroeder buscou em Vergès as fontes secretas para tentar escrever uma explosiva crônica contemporânea do Ocidente através das várias conexões terroristas. E não restam duvidas de que Vergès tem as chaves para Schroeder pelo menos tentar compreender alguns fatos que convulsionaram as ultimas décadas do século 20.
O resultado é tão apaixonante quanto caótico. Há tanto material aproveitado, e Schroeder parece tão envolvido com o personagem e com as pessoas ao redor dele (há outras entrevistas, com amigos e colaboradores), que parece até um tanto trabalhoso ao diretor administrar as infinitas ramificações da informação. O que, afinal, transforma o documentário, vez e outra, aqui e ali, em algo inapreensível. Mas mesmo com esta configuração, digamos, exaustiva, ''O Advogado do Terror'' é de longe um dos melhores títulos recentes disponíveis nas locadoras.


