Decididamente nua
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de março de 2002
Antônio Mariano Júnior<br>Reportagem Local 
Ela está ansiosíssima para que sejam feitas logo as fotos, o que deve acontecer nos próximos dias. Mas ao contrário de outras celebridades que aceitam posar nuas, Dercy Gonçalves não está fazendo dietas especiais, bronzeamento, lipoaspiração, essas coisas. Tudo isso é frescura para a atriz e humorista que completa 95 anos em junho. Para o ensaio que irá fazer para a edição brasileira da revista Penthouse, Dercy vai mostrar o que tem de melhor: a auto-estima. Não vou posar para arrumar homem ou porque tenho sede de sexo. Vou posar porque para mim é uma questão de dignidade, de coragem. Por que com a minha idade tenho que perder minhas coragens?, analisou ela, durante sua passagem por Rolândia, no final de semana, onde apresentou o espetáculo Dercy, Enciclopédia de Vida.
O ensaio, ainda sem data definida para chegar às bancas, virá acompanhado de uma reportagem sobre a humorista. As fotos deverão ser feitas na piscina do Copacabana Palace e em sua cidade natal, Santa Maria Madalena, interior do Rio lá, uma das locações sugeridas por ela é o seu túmulo. Pois é... E por que não? Fiz um túmulo lindo e você acha que vou deixar passar despercebido?, indaga.
Mas Dercy avisa: não vai se arreganhar. Ou seja, as partes íntimas ela não vai mostrar nem que a vaca tussa. O motivo? Bem, é melhor ela explicar com seu jeito desbocado: O sexo é muito feio. Tão feio que fica escondido no meio das pernas e com um monte de cabelo por cima. Pano rápido!
São tiradas bem-humoradas como essas que fizeram dessa senhora de quase cem anos uma das celebridade mais populares e queridas do Brasil. É impossível ficar ao seu lado sem soltar boas gargalhadas. Até os palavrões mais cabeludos são usados de forma a provocar o riso nunca para agredir o interlocutor. Mas quando provocada preparem-se para renovar o repertório de palavrão. Se bem que durante a entrevista ela foi econômica nas tais palavras grandes, embora um p.q.p ou f.d.p tenham sido disparados aqui, ali, acolá.
Não há meios termos para Dercy Gonçalves. Para ela, pau é pau, pedra é pedra. Trocando em miúdos, ou se gosta ou se detesta a artista. Porém, a dignidade desse monstro sagrado do teatro, cinema e televisão é inquestionável. Ela nunca escondeu os solavancos que a vida lhe deu ao contrário, conta tudo o que lhe passou sem muitos devaneios a quem possa interessar. O lado amargo e isso é admirável vem a público diluído com fortes doses de ironia, deboche, irreverência enfim, humor. Todo mundo tem o dever de se dar o bom humor. É preciso brincar com a vida, esquecer o sofrimento, ensina. Não quero saber do passado. O passado para mim é hoje. Eu vivo sempre à espero do que vai acontecer e essa é uma das minhas felicidades, complementa.
Às vezes, Dercy narra histórias que por mais engraçadas que possam ser sempre possuem um lado bruto a ser lapidado. Desde que se conhece por gente, Dolores Gonçalves Costa (nome de batismo), nascida em 23 de junho de 1907, queria ser artista. É aquele tal negócio: por mais que fosse sua vontade ou vocação, a família não via com bons olhos esse ofício. Mulher artista era considerada p..., conta.
Até que um belo dia, a companhia de Maria Castro passou por sua cidade e pronto: era com aquele povo encantado que a jovem Dolores queria conviver. E foi. A estréia profissional aconteceu em 1929. Daí em diante, foi cavando espaço e fez-se tão importante no teatro quanto no cinema. A televisão apenas consagrou sua popularidade. Contado assim, parece até um conto de fadas. Mas doenças, abandonos, traições, desamores, desaforos, problemas financeiros foram alguns dos vilões que atravessaram seu caminho. Tudo isso está esmiuçado em Dercy de Cabo a Rabo, biografia escrita por Maria Adelaide Amaral e lançada em meados da década de 90.
Para uma mulher que sempre fez o que lhe deu na telha, transgrediu regras, esquivou-se de padrões pré-estabelecidos e enfrentou preconceitos com o peito estufado chega a ser contraditório a seguinte afirmação: Eu sou conservadora. Então, como explicar as fotos nuas (ou seminuas), os peitos para fora durante o desfile da escola de samba carioca Viradouro quando foi tema de enredo? Cada um que faça o próprio julgamento.
Às vezes, Dercy dá o braço a torcer. Dona de um pavio milimétrico, reconhece que o seu temperamento muitas vezes lhe causou transtorno. Mas o mea culpa dura pouco. Logo se refaz e o gênio forte volta com tudo. Sou insuportável, mandona. Desacato qualquer um se for preciso, avisa. Um dos casos mais recentes foi a retirada de seu programa no SBT. Sua participação na emissora ficou resumida a uma breve aparição num dos quadros do A Praça é Nossa. Durou pouco. Mandou uma carta à direção da emissora comunicando seu afastamento do programa. Aquilo é um programa para desempregados. Eu sou muito grande, muito artista para ir lá e falar só duas palavras, solta.
Coincidência ou não, Silvio Santos, o dono do SBT, até hoje não se comunica com ela apesar de mantê-la no elenco da casa. Aliás o contrato termina em março do próximo ano. Se não renovar eu vou xingá-lo tanto, mas tanto, afirma. E não duvidem...Enquanto aguarda sua volta às telas, a humorista mata o tempo todas as noites num bingo no Rio de Janeiro. Já chegou, numa noitada, a embolsar R$ 10 mil.
Amenidades. O relevante é que Dercy Gonçalves, polêmica ou não, já deixou sua marca pessoal na cultura brasileira. Amo o privilégio de ser artista e ser amada em meu país, diz comovida. Lição de vida? Ela não é chegada a essas coisas. Só sei que tenho quase cem anos. Eu sei o que é a vida. E a vida, a vida é f.... Alguém ousa dizer o contrário?


