Decepcionantes contos de um crítico excepcional
Paulo Polzonoff
De Curitiba -Especial para a Folha
Em 1947 Edmund Wilson foi condenado sob a acusação de incitar a imoralidade pública ao publicar um livro considerado obsceno. Este livro chama-se Memórias do Condado de Hecate (Cia das Letras, R$ 31,00). Escrito por aquele que é considerado o maior crítico literário americano de todos os tempos, o livro é uma coletânea de seis contos escritos em primeira pessoa, com uma tênue ligação entre si. Grande crítico e ensaísta, Wilson revela-se um contista medíocre. Suas descrições de atos sexuais, que escandalizaram a Nova York nos anos 40, não passam de palavras que resumem a sexualidade humana a uma palavra que lembra o ato entre animais: coito.
Edmund Wilson era um gênio egocêntrico, beberrão e priápico. Nos anos 20, foi ousado ao apontar qualidades literárias em autores como James Joyce, F. Scott Fitzgerald e Hemingway. Além disso, foi o principal revitalizador das obras de Dickens e Kipling. Como crítico, alcançou fama e prestígio nos meios literários. Como escritor, porém, não chegou aos pés da obra daqueles que pôs à prova com seu precioso olho crítico.
Memórias do Condado de Hecate tem um ranço de livro já lido. E não poderia ser diferente. O livro se passa na década de 20, a Era do Jazz e também o período em que floresceu a literatura da chamada Geração Perdida, que agrupava os escritores que viveram as atrocidades da guerra de trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial. Nesta época os Estados Unidos viviam a efervescência cultural do jazz e a repressão hipócrita da Lei Seca. Foram anos bons, até 1929, quando veio a Grande Depressão e acabou com ilusão do boom econômico americano. É uma época cujos personagens se caracterizam pela futilidade. F. Scott Fitzgerald, considerado um dos maiores escritores da sua geração, e descoberto por Wilson, retratou como ninguém esta década em livros como O Grande Gatsby e Suave é a Noite.
Wilson parece revisitar F. Scott Fitzgerald em Memórias do Condado de Hecate. Seus personagens são inconsistentes e sua prosa é lida como um calhamaço de nada. A impressão que se tem é que suas histórias foram escritas apenas para inflar um ego que já era algo comparável ao Zepellin. Se em Fitzgerald, porém, a escrita vazia de prosa retilínea e tediosa tinha valor como originalidade, em Memórias do Condado de Hecate, escrito vinte anos mais tarde, isto adquire um valor depreciativo. Além disso, como que hesitante entre dois períodos distintos, Wilson valoriza, como nenhum escritor moderno valorizaria, a descrição de lugares. Pena que tão meticulosa construção de mansões e cômodos não tenha se refletido também na montagem dos personagens.
O conto A princesa dos cabelos dourados, responsável pelo processo contra Wilson, nada tem de pornográfico aos olhos dos anos noventa. Foi assim tachado porque contém minuciosas descrições dos movimentos sexuais. Não faria diferença alguma se se trocasse os nomes dos personagens por Chita e Benji. Isto porque os personagens de Wilson não se revelam como humanos em sua sexualidade. Trata-se de uma cópula, ou, como já se disse, coito. Um ato reprodutivo, não mais que isso.
Quem se interessou pelo livro por conta da fama de Wilson como crítico certamente se decepcionará com sua ficção. Mas não tanto quanto aqueles que dele se aproximaram pela fama de pornógrafo.





