DECEPÇÃO RUSSA E
‘‘TANGO’’ DE SAURA
Na cerimônia de premiação,
amanhã, em Cannes, ‘‘Godzilla’’
é aperitivo dos EUA
Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial de Cannes para a Folha2
Patrick Hertzog/France PresseCarlos Saura: ‘‘Tango’’ é tão bom quanto ‘‘Carmen’’, ‘‘Bodas de Sangue’’ e ‘‘Flamenco’’Tudo pronto para o desembarque do ‘‘Godzilla’’ ianque, amanhã à noite, no encerramento do 51º Festival de Cannes. É o grande remake da temporada, 45 anos depois que os japoneses soltaram nas telas do mundo o seu tiranossauro destruidor. Em seguida, a partir das 21h15, a atriz Isabelle Huppert comanda a cerimônia de premiação.
Imaginem um filme, uma comédia, de 150 minutos, que tem absolutamente de tudo, e que ao mesmo tempo provoca tédio, desinteresse e irritação, dadas suas voltas e reviravoltas. Pois este porre é ‘‘Khroustaliov, Meu Carro!’ , sem dúvida um equívoco de seleção imperdoável num Festival com a reputação de Cannes. Em argumento que mistura política, sexo, repressão ideológica e máfia, o diretor Alexei Guerman preparou uma autêntica salada russa.
Segundo notícias que muita gente fez questão de nem saber, o cineasta, que é de Leningrado, tentou em vão viabilizar seu projeto por mais de uma década. E quando conseguiu, com substancial financiamento francês - o que explica mas não justifica o filme na mostra competitiva - o resultado é uma frustrante explosão de idéias, imagens em incessante cacofonia, dezenas de personagens e uma câmera sempre pirotécnica tentando contar uma história quase sempre impossível de acompanhar.
Quem andava saudoso dos belíssimos bailados filmados pelo espanhol Carlos Saura pode ir se preparando. Seu novo filme, ‘‘Tango’’, mostrado aqui fora de concurso e em primeira exibição mundial, é tão bom quanto a trilogia de que fazem parte ‘‘Carmen’’, ‘‘Bodas de Sangue’’ e ‘‘Flamenco’’. Foi o produtor argentino Juan Codazzi que, há dois, propôs a Saura um filme sobre o tango. Em companhia do iluminador italiano Vittorio Storaro e do compositor argentino Lalo Schifrin, ele foi a Buenos Aires à procura não apenas de coreógrafos e dançarinos, mas de todo o universo de pessoas de uma forma ou de outra ligadas à música. Com sua câmera de vídeo bem alimentada de imagens e com centenas de discos, Saura voltou a Madri para escrever o roteiro. Com uma retaguarda de co-produção argentino-espanhola - quase 7 milhões de dólares - o filme pôde afinal ser realizado. Trabalhando estreitamente com um formidável trio de coreógrafos, Saura obteve o mesmo resultado satisfatório das outras vezes. ‘‘Tango’’ não é nunca teatro filmado, mas uma outra linguagem, que só pode ser obtida quando há um autêntico trabalho de equipe.

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