Rio, 06 (AE) - O pintor francês Jean-Baptiste Debret, que retratou o cotidiano da nobreza e do povo no Brasil Colônia e no Primeiro Império, vai ter uma mostra de sua extensa obra exposta na Europa, dentro da comemoração dos 500 anos do Descobrimento. Serão 80 aquarelas da coleção Castro Maya, que estarão em janeiro do ano que vem no Palácio de Luxemburgo, sede do Senado francês, em Paris, e depois viajam para Estrasburgo, Freiburg, na Suíça, e Porto, em Portugal. Antes disso, em setembro, as obras estarão em exposição no Paço Imperial, no Rio.
Debret é considerado o principal artista dos primeiros anos do Brasil pois, além de retratar o cotidiano nos anos imediatamente anteriores e posteriores à Independência, também era uma espécie de consultor visual da elite. "Ele é o nosso primeiro carnavalesco, pois criava cenários para as festas da elite, desenhava pano de boca para teatros e influiu em todas as artes plásticas do Império", diz Júlio Bandeira, curador da mostra. "A concepção da bandeira do Brasil, por exemplo, com fundo verde e o losango amarelo, é dele e foi adaptada ao modelo atual depois da Proclamação da República."
Exílio - O artista chegou ao Brasil em 1816, a convite de Dom João IV, fugindo de problemas políticos e pessoais. Bonapartista - era primo de Louis David, o retratista oficial da corte de Napoleão - caiu em desgraça logo após a derrota do imperador francês, em Waterloo, em 1815. Na mesma época, morria seu único filho e ele recebeu convite para trabalhar na corte russa e no Brasil, onde seria o retratista oficial da corte. "Esse era seu trabalho principal, mas nas horas vagas pintava também o cotidiano dos escravos e da população pobre", conta Bandeira. "Nesta exposição, vamos mostrar sua produção oficial, ou seja, sobre os nobres e por isso o título será Debret e a Corte no Brasil."
Bandeira esclarece que nessa corte havia os nobres brancos, descendentes dos portugueses, e os africanos, que haviam sido reis antes de capturados pelos navios negreiros e, depois de conseguir a carta de alforria no Brasil, formavam uma corte em torno se si. Uma das aquarelas expostas, retratando o recolhimento de esmola para a Igreja do Rosário, frequentada por negros libertos, mostra exatamente a família de um desses soberanos em traje de gala. "Esses reis eram respeitados durante o Império a ponto de Dom Pedro II fazer reverência a alguns deles quando os encontrava", ensina Bandeira.
O pintor ficou no Brasil durante 15 anos até pouco antes da abdicação de D. Pedro I. Nesse período, fez aquarelas de paisagens brasileiras, dentro e fora do Rio, então capital federal, muitas vezes em tamanho de cartão postal para mandar ao irmão, que vivia em Paris. "Quando voltou à França, ele cuidou quase só da edição de seu livro "Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil", mas o terceiro volume, de 1839, causou inúmeros protestos porque mostrava imagens de um Brasil pobre, que a elite não queria que ficasse conhecido", comenta o curador. "Além disso, a primeira edição foi quase totalmente destruída porque o papel era muito caro naquela época e os livros foram reciclados."
Paixão - Boa parte de sua produção voltou para o Brasil num lance que mistura sorte e amor à primeira vista. Em 1939, cem anos depois da terceira edição da "Viagem Pitoresca", uma sobrinha neta de Debret ofereceu 560 aquarelas originais do artista ao milionário e mecenas carioca Raymundo Ottoni Castro Maya, em férias na Europa. Ele fez o negócio e trouxe a coleção de volta ao Brasil, para expô-la no Museu do Açude, uma de suas três residências no Rio. "Na verdade Castro Maya sabia pouco de Debret, mas apaixonou-se tão logo tomou conhecimento do trabalho dele e conseguiu juntar a maior coleção do artista no Brasil", lembra Bandeira.
Após a morte do mecenas e por determinação dele, suas casas viraram museus. Mas o pavilhão no Museu do Açude era inapropriado para guardar obras em papel, devido à umidade da Floresta da Tijuca, que fica próxima. As aquarelas, depois de restauradas, foram para a Chácara do Céu, outra residência de Castro Maya, onde foram acondicionadas em gavetas especiais, que as protegem da ação do tempo. Vez por outra, são emprestadas para exposições como esta do Palácio de Luxemburgo. "Procuramos fazer um revezamento nos empréstimos, para podermos cuidar bem de sua conservação e não deixar nosso acervo empobrecido", explica a diretora dos museus Castro Maya, Vera Alencar.

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