‘A Morte de Sócrates", de Jacques-Louis David (1787): ilustração do cartaz do evento
‘A Morte de Sócrates", de Jacques-Louis David (1787): ilustração do cartaz do evento | Foto: Reprodução



A palavra "universidade" vem do latim "universitas", que significa "universalidade, conjunto, totalidade, companhia, corpo, comunidade, colégio, associação, corporação", ou seja, um espaço plural no qual possa haver debate de ideias e posições. A descrição do evento "UEL, a casa da tolerância" diz, além de apresentar a definição acima, que a "sociedade brasileira e londrinense estão radicais e perigosamente divididas" e que é necessária a tolerância. O projeto de extensão acontecerá durante o ano todo e encerrará as atividades no dia 30 de novembro, com o filósofo, professor da USP e colunista da Folha de São Paulo Luiz Felipe Pondé, no Cabaret Valentino - o único espaço fora da UEL (Universidade Estadual de Londrina) durante todo o evento.

Professor do departamento de História desde 1994, Gabriel Giannattasio é o idealizador do projeto. Segundo ele, a ideia surgiu após uma fala, "em tom desafiador", dita em uma reunião do departamento, que fica no CLCH (Centro de Letras e Ciências Humanas), junto aos cursos de Filosofia, Ciências Sociais e Letras. Toda a situação começou no fim de 2016, após a indicação, por parte da Câmara Municipal, de um vereador ao órgão máximo da UEL: o Conselho Universitário. Assim que a indicação foi feita, ele e um outro professor de História (classificado por Giannattasio como "de esquerda"), em e-mails trocados na intranet, teriam defendido a legitimidade da indicação, mas nem todos queriam a mesma coisa. Criou-se um impasse. A discussão foi parar em uma reunião do departamento, na qual o professor Giannattasio teria ouvido que "se achava importante debater com gente como o vereador, que ele organizasse um evento".

Segundo Gabriel Giannattasio, a meta é promover um "debate respeitoso, que não significa concordar, mas discordar e apresentar argumentos"
Segundo Gabriel Giannattasio, a meta é promover um "debate respeitoso, que não significa concordar, mas discordar e apresentar argumentos" | Foto: Lilian Manganaro/ Divulgação



Nascia a ideia da "casa da tolerância" para "provocar um estranhamento no âmbito da universidade, levando pessoas que são quase 'personae non gratae' (pessoas que não agradam, em latim) ao CLCH". A meta é promover um "debate respeitoso, que não significa concordar, mas discordar e apresentar argumentos". A mesa de abertura, "A tolerância e seus limites", nesta quarta-feira (18), a partir das 19h30 no Anfiteatro do CLCH na UEL, será composta pelo próprio professor, por Paulo Antônio Briguet, escritor e jornalista, e pelo professor de Filosofia José Fernandes Weber. Todos os eventos, com exceção do encerramento, serão na universidade. Olavo de Carvalho, filósofo autodidata e residente nos Estados Unidos, participará por videoconferência. Flávio Gordon (autor de "A Corrupção da Inteligência") e Eduardo Wolf (doutor em filosofia pela USP e colunista do jornal O Estado de S. Paulo) também estão entre os convidados.

Questionado se um evento apenas com pessoas como Briguet, Pondé e Carvalho – considerados conservadores - não poderia ser classificado como um projeto com apenas um lado e, portanto, similar ao que a "esquerda" é acusada de fazer (como no caso do seminário "O Golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil", realizado recentemente em várias universidades), Giannattasio refutou e disse que a diferença é que foi feito o convite a pessoas com opiniões divergentes, apesar de ainda não ter havido resposta. Mesas sobre "Ideologia de Gênero" e "Escola Sem Partido", por exemplo, têm em sua programação os nomes do Pe. Rafael Solano e do vereador londrinense Filipe Barros (PSL) como debatedores. Abaixo dos nomes considerados conservadores há uma lacuna que pode ser preenchida caso haja alguma resposta.

O idealizador, diz ter encontrado em Briguet e em Barros abertura para críticas, quando ele as achou necessárias e as fez - como no caso das exposições "Queermuseu e La Bête", censuradas no ano passado, sobre as quais ele tem divergências com relação à posição dos dois. Segundo ele, o primeiro foi um "abrigo para a causa dele (o debate entre ideias), mesmo não concordando com tudo o que ele diz". "Debate pressupõe posições equânimes", explica Giannattasio, ainda esperando debatedores para atingir o objetivo de promover algo que "infelizmente não é uma cultura do departamento de História (o debate entre ideias divergentes) ou do departamento de Ciências Sociais", mas que está mais presente nos departamentos de Letras e Filosofia - "menos partidários, no sentido de defender uma posição e acreditar que só ela está correta".

A programação do evento está disponível no Facebook.
*Supervisão: Célia Musilli
Editora da Folha 2

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