Apenas 18% (994) dos municípios brasileiros possuem coleta seletiva e com isso o país perde cerca de R$ 8 bilhões por ano por deixar de reciclar os resíduos que poderiam ter outro fim, mas que são encaminhados aos aterros e lixões das cidades, segundo apontou pesquisa recente realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) por encomenda do Ministério do Meio Ambiente. Para ampliar a reflexão sobre esse assunto, o Programa Folha Cidadania promoveu na manhã da última sexta-feira, na Câmara Municipal de Cambé, o "VI Debatedores Mirins", que reuniu seis alunos de Cambé, Londrina e Rolândia. O evento começou com um coffee break e, no final, teve a distribuição de certificados e placas de agradecimento. Os alunos participantes e suas respectivas turmas também irão realizar hoje um passeio ao Projeto Jabuti Lazer & Conhecimento.
Participaram do debate os estudantes Eduardo Augusto Couto Fumegali e Gabrielly da Luz Assunção, da Escola Municipal Maria Rosa Trevisan Galhasce (Cambé); Camila Nayara Souza de Morais e Guilherme Aparecido Nunes, da Escola Municipal Armando Rosário Castelo (Londrina) e Edilaine de Lima Alves e Matheus Felipe Souza de Campos, da Escola Municipal São Fernando (Rolândia). Além dos pais, professores e representantes de secretarias de educação, estava presente Alexander Lukaszczuk, gerente de negócios do Sicredi, patrocinador do Projeto Folha Cidadania.
Sentados nas cadeiras destinadas normalmente aos vereadores, as crianças conseguiram superar a timidez e a formalidade do local para expressar as suas opiniões e ideias a partir do tema "Por que devemos reciclar o lixo?". Embora a temática atualmente seja bastante trabalhada nas escolas e pela mídia, o debate mostrou que ainda há muito por fazer e resta várias dúvidas sobre o processo que envolve a coleta seletiva e a reciclagem.

Reciclar como hábito
De modo geral, os alunos falaram que na rotina de suas famílias a separação do lixo reciclável ainda não é um hábito. Apesar das informações diárias que circulam sobre a importância dessa medida, falta conscientização. "Acho que as pessoas têm preguiça. É preciso mais atitude e menos preguiça", sugeriu a aluna Edilaine. "Não costumo falar muito sobre isso em casa, fico com medo que eles fiquem bravos comigo", acrescentou. Por outro lado, os alunos reforçaram que em suas escolas é comum os alunos jogarem corretamente o lixo nos coletores para material reciclável e participarem de atividades que envolvam a reutilização de materiais. "Na minha escola já até fizemos uma cortina de garrafa PET", comentou a aluna Gabrielly.
Ciente do perigo da contaminação do lençol freático nos lixões a céu aberto, principalmente com as substâncias encontradas em pilhas e lâmpadas, o aluno Eduardo lembrou: "não basta ter uma lei que exija a reciclagem, é preciso ter mais conscientização e todo mundo precisa se envolver".

Pequenos fiscais
Questionados sobre o poder de "fiscalização" que as crianças poderiam ter, eles concordaram que a capacidade de persuasão que têm para insistir com os pais por um brinquedo novo também pode ser utilizada para exigir atitudes mais ecológicas no dia a dia.
"Precisamos lutar por um futuro melhor, mais limpo para nós e para os filhos que teremos. Isso vai ser bom para todo mundo", declarou Edilaine. "É horrível pararmos para pensar que alguns materiais podem demorar mais de 100 anos para se decompor, poluindo o meio ambiente. As pessoas precisam se dar conta disso", ponderou Matheus.

Lixo orgânico X lixo comum
Eles também falaram da dificuldade de se destinar corretamente o lixo orgânico, principalmente no caso das pessoas que moram na área urbana, e das dúvidas do que pode ser misturado a esse tipo de rejeito. Por exemplo, os alunos se admiraram com a informação de que as caixas de papelão para pizza após serem usadas não podem mais ser reutilizadas por já estarem sujas de óleo. Infelizmente, mesmo sendo de papelão, o material deve ser descartado no lixo comum. E assim como o óleo, os remédios não devem ser descartados pelo ralo. No caso do óleo, o produto pode servir de base para fabricar sabão caseiro ou encaminhado para alguma empresa que o recicla. Já os remédios devem ser entregues em postos de saúde para o descarte correto.
No caso da escola dos alunos Guilherme e Camila, é feita diariamente a compostagem do lixo orgânico produzido no local, como talos de verduras, restos de alimentos, bagaços e folhas. O projeto conquistou em 2011 o primeiro lugar no 3º Concurso Meio Ambiente – Melhores Práticas, do 9º Londrina Matsuri.
O adubo orgânico ajuda na manutenção da horta escolar: "Sempre comemos produtos da horta, como moranguinho, rúcula, hortelã, cebolinha. É muito legal", contou. Na casa da sua colega, a Camila, o lixo orgânico também tem um destino adequado. Como ela mora na área rural, o lixo orgânico vira lavagem para os porcos. Mas como a coleta seletiva não chega até o sítio onde mora, a solução é queimar o lixo acumulado que poderia ser reciclado, prática ainda comum na área rural.

De olho nos lixões
Durante o debate eles se comprometeram em buscar mais informações sobre o encaminhamento do lixo em suas cidades, o que pode render um bom trabalho de pesquisa escolar. Estima-se que haja 4 mil lixões no Brasil e a nova lei federal – a Política Nacional de Resíduos Sólidos - determina que até 2014 todos os municípios desativem os lixões e passem a ter apenas aterros sanitários: desafio que envolve investimento alto do poder público.
A realidade de trabalho dos coletores de lixo também foi foco da discussão. Embora nenhum dos alunos tenha visitado uma cooperativa de reciclagem, eles relataram que já viram pela televisão e em livros didáticos pessoas trabalhando em condições desumanas tanto nos lixões e ruas quanto nas próprias cooperativas.

Pensando no futuro
Otimistas com relação ao futuro, os alunos afirmaram que todos precisam se envolver nos cuidados com o meio ambiente. Lembrar dos 3 R´s – reduzir, reutilizar, reciclar – deve fazer parte do cotidiano de todos, citou o aluno Eduardo. No ciclo "indústria – consumo – reciclagem" há um consumidor que deve estar ciente do seu papel e que não precisa ser refém de um processo consumista desenfreado que acarreta uma geração exagerada de lixo, com destaque para o lixo eletrônico, em que o Brasil é campeão por habitante: meio quilo por ano.

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