DEBATE
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 23 de março de 2004
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Um certo alívio toma conta dos espectadores depois de duas horas testemunhando tanto horror perante os céus. Promovida por Mel Gibson, a violência explícita de ''A Paixão de Cristo'' fica muito, mas muito distante das versões romanceadas a que fomos submetidos até então talvez aí resida o incômodo maior. Avassalador, o filme do ator e diretor australiano vem gerando lucro quase US$ 300 milhões arrecadados só nos EUA em proporção crescente à ira da comunidade judaica que alega tratar-se de uma produção anti-semita. ''O filme deveria chamar-se 'O Evangelho Segundo Mel Gibson', ironiza Abraham Shapiro, empresário londrinense e diretor para a região sul-brasileira do Centro de Difusão da Cultura Judaica para a América Latina, com sede em Tel Aviv (Israel).
Ao lado do pastor Glênio Fonseca Paranaguá e do padre Valter Diniz dos Santos, Shapiro assistiu atentamente a uma das primeiras exibições de ''A Paixão de Cristo'', na última sexta-feira, em Londrina. Os três representantes das religiões evangélica, católica e judaica aceitaram o convite da Folha2 para conferir o filme e tecer alguns comentários. O clima antes, durante e depois da sessão foi de absoluta cordialidade, apesar da leitura distinta do que se passou na tela de um dos cinemas do Catuaí Shopping.
Para o pastor Glênio, da Primeira Igreja Batista em Londrina, como produto artístico ''A Paixão de Cristo'' é um bom filme. Mas peca em alguns aspectos históricos não citados no Novo Testamento, como a presença de satanás no meio do povo judeu, a sucessão de quedas durante a Via-Crucis e, a presença de Maria com Jesus no colo após Ele ter sido retirado da Cruz e, principalmente, o excesso de chicotadas. ''Não se pode negar que é uma obra de arte, mas alguns aspectos da historicidade precisam ser revistos'', cita Glênio.
Menos enfático em suas explanações, o padre Valter Diniz dos Santos aponta para um fator que pode estar atraindo atenção em torno da releitura mais cruel sobre as últimas 12 horas daquele que é considerado a figura mais importante do cristianismo. ''Acredito que o filme esteja fazendo muito sucesso porque as pessoas se identificam com aquele que sofre'', analisa.
O fato é que ''A Paixão de Cristo'' pode ser visto por vários enfoques. A principal e mais polêmica de todas é a questão do anti-semitismo que causa, sim, reflexão mais aprofundada ora, por ser uma versão pessoal de Mel Gibson está sujeita a questionamentos. Mas, no todo, é uma bela obra que precisa ser vista. E se possível com isenção de ânimos maiores. A seguir os principais trechos da conversa com Abraham Shapiro, o pastor Glênio Paranaguá e o padre Valter Diniz dos Santos.
Abraham, vou direto ao assunto: é um filme anti-semita?
Declaradamente anti-semita. Fiz de tudo, ao longo da exibição, para achar pontos que estivessem em contradição a isso. Mas em todas as cenas, absolutamente todas, as sequências me fazem crer que é um filme anti-semita. Isso se dá pelo próprio fato de Jesus em nenhuma das ocasiões aparecer como judeu. E Ele nasceu judeu, foi circuncidado ao oitavo dia, conforme diz o Evangelho e fez o Bar Mitzva (iniciação quando o judeu passa a ser considerado maior de idade para assuntos religiosos) aos 13 anos. Por que Mel Gibson separa Jesus, tira esse judaísmo da pessoa de Jesus, e lança os judeus da época como sendo os grande culpados pela sua morte?
Mas não teriam sido pessoas insufladas, motivadas por uma cúpula religiosa?
Nessa proporção? O poder era tão grande assim, sendo que o próprio Caiphas (Sumo Sacerdote do templo de Jerusalém) era um homem duvidado pelo povo? O povo Judeu daquela época duvidava muito de Caiphas e isso são narrativas do Talmude (obra que traz a referências éticas e moral da interpretação bíblica, de acordo com o a religião judaica), uma fonte histórica da época.
Padre, o senhor concorda com Abraham de que o filme provoca a comunidade judaica?
O filme focaliza bastante que os maiorais do templo insuflam a população para que possa fazer alguma coisa. Aquele que deveria decidir (Pilatos) não decide. E quem decide são os judeus que insuflam a população. Então, no filme, a culpa recai sobre os judeus.
Pastor, como o senhor se posiciona?
Alguns anos atrás, o Estelio Feldman, ex-jornalista da Folha, foi fazer uma entrevista comigo na época de uma Páscoa. E ele me perguntou: 'Glênio quem matou Jesus, os judeus ou os romanos?'' Eu disse: nem judeus nem romanos, fui eu. Ele tomou um susto. Do ponto de vista da teologia a morte de Jesus é o cordeiro que foi imolado antes da fundação do mundo. Era um projeto de Deus. A morte de Cristo é a morte do substituto, da ovelha que toma o lugar do pecador.
Abraham, há uma frase no filme dita por Pilatos mais ou menos assim: ''tua própria gente te entregou a mim''. Seria a maior provocação aos judeus?
Não. A maior provocação que vejo é o fato de satã aparecer quatro vezes. Nenhuma dessas aparições ocorre nos quatro evangelhos, da forma como está exposta por Mel Gibson. É pura invenção. Onde é que que satã aparece todas essas vezes? Deslizando entre a população de judeus. Ou seja, ele está tentando fazer uma fusão, como se satã falasse: ''este é o meu povo e estou fazendo o que bem quero''. E isso é uma mensagem subliminar, aí está o Deicídio que a própria igreja católica encerrou em 1965, através do Concílio Vaticano II, que diz não serem os judeus culpados por aquilo, assim como também a culpa do romano que estava lá não deva recair sobre o romano que nasce em Roma hoje.
Pastor, Jesus sofreu tanto como mostra o filme?
Sofreu bastante. Foi cruel, mas não acredito que seja com tanta fúria. Eu vou mexer num negócio que ele (Shapiro) pode ficar meio... Eu creio que sempre que você conta uma história do seu ponto de vista, a tendência é exagerar. O contador da história, a vítima, é muito mais eloquente. Por exemplo, o judeu quando conta o problema do holocausto, que foi uma monstruosidade...
Shapiro O próprio Mel Gibson faz pronunciamentos públicos, frívolos e ambíguos a respeito do holocausto, chegando próximo a negá-lo. E quando perguntado se o filme dele era anti-semita, ele disse: ''não, não, eu amo os judeus e oro por eles''. Por isso digo e repito: poupe-nos desse tipo de amor, senhor Gibson.
Padre, se é que há, que tipo de moral da história o filme passa?
O que eu pude verificar é que todo mundo que assiste ao filme fica sensibilizado. Ou seja, vai se sentir culpado e a culpa é algo difícil de se carregar. Diz São Paulo que todos pecaram e todos carecem da glória divina. O filme lembra que o sofrimento foi por causa de cada um de nós. E cada um de nós compartilha da culpabilidade daquela situação que foi gerada lá atrás, mas que tem uma consequência prazerosa com a ressurreição de Cristo e benefícios numerosos para nós hoje.
Pastor, existe alguma moral, leitura, algo subliminar no filme ao seu ver?
Eu acredito que, no fundo, haja uma semente anti-semita neste filme. Há uma semente. Mas não pode se negar a importância da leitura do sacrifício de Cristo apresentado por ele (Mel Gibson). Foi muito focalizado no sofrimento naquele pouco tempo entre o Getsêmane (local onde Jesus se reuniu com todos os seus discípulos antes de ser preso) e a cruz.
Em outras palavras, tirando equívocos e acertos, o filme serve para evangelização, é isso?
O filme serve para reflexão. Inclusive para mostrar o que significa o sacrifício de Cristo. O sacrifício de Cristo não é apenas um homem que morreu, e sim você e eu que somos os pecadores. Paulo, que foi um camarada perspicaz no entendimento do significado da cruz, usa uma expressão mostrando mais ou menos isso: assim como nós pecamos em Adão, assim morremos em Cristo.
Abraham?
Ao meu ver o sofrimento maior desse homem chamado Jesus de Nazaré deve ter sido muito mais em seu interior por conhecer profundamente o ser humano, do que por causa das pauladas, chicotadas e pregos que tenha levado. Minha pergunta é: qual o propósito de um exagero como aquele rio de sangue? Parece mais um filme de Superman do que um filme da paixão de Jesus. (...) Não está em questão para mim a teologia cristã que acho bárbara, maravilhosa, vejo que funciona. O que está em jogo é: qual o propósito do filme?
Boa pergunta: qual o propósito do filme, padre?
O propósito do filme é que todos sintam-se culpados pelo sofrimento de Jesus e possam se transformar, se converter para uma vida nova para a Páscoa.
Pastor?t
O Evangelho não é pictórico, é da palavra. O problema todo desse filme é a imagem, que não fala adequadamente. A imagem fala aos sentidos, enquanto a palavra fala ao intelecto. Lógico que você pode usar métodos de imagética para se levar a alguma coisa. Porém, há o risco da imagem se focalizar detalhes que não são os mais importantes. O importante do sacrifício de Cristo é o poder do amor que Ele viveu e pregou.


