DEBATE - Engenheiro critica uso precoce da tecnologia
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quarta-feira, 01 de dezembro de 2004
Felipe Werneck<br> Agência Estado 
''Deixe as crianças serem infantis: não lhes permita o acesso a TV, joguinhos eletrônicos e computadores!'' O alerta está na página do professor da Universidade de São Paulo Valdemar Setzer na Internet. Titular do departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística da USP, ele defende que o computador seja utilizado somente a partir dos 17 anos. Mas admite que isso hoje é ''meio utópico''. ''Contra o uso de computadores por crianças e jovens'' é o título de um dos artigos de Setzer, de 64 anos, doutor em engenharia. ''Cheguei há muito tempo à conclusão de que o pensamento abstrato forçado pelo computador prejudica os jovens até a idade de 16-17 anos, forçando-os a usarem uma linguagem e um tipo de pensamento que é totalmente inadequado para crianças e jovens antes de terem uma maturidade intelectual adequada.''
A escola de educação infantil Jardim Michaelis, no Catete, zona sul do Rio, é a única no Rio a adotar a pedagogia Waldorf, introduzida pelo austríaco Rudolf Steiner em 1919, na Alemanha, que critica o uso precoce da tecnologia, difundida no Brasil por especialistas como Setzer. Ali, não há computadores nem televisão. Os dias são preenchidos com atividades artísticas e artesanais. As crianças não usam uniformes, brincam com bonecos confeccionados por elas próprias, sobem na árvore plantada por professores no quintal da casa, ouvem histórias do folclore nacional contadas em rodas, lancham somente pratos naturais feitos com a ajuda delas a partir de receitas de pais e mães, fazem teatro de marionetes com cirandas e poesia e não conhecem as músicas da Xuxa.
A Michaelis existe há 11 anos e tem atualmente 22 crianças de dois a seis anos matriculadas. Todos os cargos de diretores a secretárias são preenchidos por professores ou pais de alunos, numa espécie de auto-gestão, oficialmente sem fins lucrativos. A mensalidade custa R$ 530,00. A escola não alfabetiza normalmente, isso ocorre aos cinco anos, mas a pedagogia Waldorf recomenda que ocorra somente na 1 série do ensino fundamental. ''A base é deixar que a criança brinque por si, com o mínimo possível de estímulo externo. É importante que não haja interferência no desenvolvimento delas, o que não significa falta de limites, pautados sempre na autoridade amorosa do professor. Assim, elas podem criar recursos próprios'', diz a orientadora pedagógica da escola, Rosa Fantini. ''Não damos nada pronto. Assim, as crianças trabalham muito mais a imaginação, a criatividade, e cada uma desenvolve a sua própria peculiaridade.''
Para a professora Nina Domingues, brinquedos manufaturados limitam a fantasia. As duas elogiam as idéias de Setzer. ''Ele fala radicalmente da tendência que existe hoje de deixar a criança passiva. A nossa proposta é olhar a individualidade de cada uma e fazer com que ela desabroche, por isso temos um grupo pequeno'', diz Rosa. ''A gente tenta preservá-las, mas não somos contra o computador, e sim contra o uso precoce. É um pouco como se você tivesse tirando a saúde da criança ao exigir muita concentração. Também não usamos elementos da mídia, não tem Mickey nem Superpoderosas. Tem que equilibrar, isso limita a capacidade criativa'', conta Nina.
''O que o computador preenche de maneira mecânica a gente tenta preencher de maneira humana. É difícil colocar que há seriedade, não é uma coisa inventada como tendência, mas temos uma linha pedagógica baseada em Steiner. No início alguns pais acham esquisito, mas depois percebem que os filhos adquirem um brincar mais tranquilo, fantasiam mais e se sentem acolhidos.'' Setzer é categórico: ''Não existe pesquisa científica que mostre os benefícios do uso do computador como ferramenta didática ou de lazer na infância. Você pensa que usa o computador, mas frequentemente é o computador que usa você. Em qualquer uso, o computador força um raciocínio matemático restrito, lógico-simbólico, e o jovem tem que ter uma maturidade muito grande para se controlar.'' Ele diz que imaginação e criatividade não se mede, portanto é difícil para algumas pessoas acreditar nas teorias. Para Setzer, a dificuldade de aprendizado seria uma das consequências. ''Quase todo mundo acha uma maravilha o filho usar o computador, mas não sabe que a aceleração da intelectualidade é altamente prejudicial.''
É quase um pregador no deserto. Atualmente, a maioria das escolas não só adota desde cedo o computador como tenta atrair alunos com o marketing do uso das máquinas. No Centro Educacional da Lagoa (CEL), na zona sul do Rio, por exemplo, com mil alunos matriculados no ensino fundamental, crianças de 3 anos já usam computadores nas salas. ''Preferimos que desde o jardim haja familiarização com as máquinas. Durante todo o ensino fundamental eles têm aulas formais de informática. É uma cadeira que é cobrada como aula formal a partir do C.A.'', disse George Cardoso, diretor pedagógico do CEL. ''O George é capaz de concordar com essas idéias (de Setzer), mas temos que nos adaptar à sociedade em que vivemos. Se a escola ficar fora disso, está fora do tempo, vai prestar um desserviço à família. Mas é claro que a gente estimula o uso da biblioteca, que o computador não seja a coisa principal na vida delas'', declarou o diretor, referindo-se a si próprio na terceira pessoa.
A coordenadora psicopedagógica de educação infantil da escola Sá Pereira, no Humaitá, zona sul, Paula Lacombe, adota o bom-senso: ''Não temos nada teorizado, a prática foi nos mostrando aos poucos. Usamos computadores só a partir da alfabetização e não para que a criança aprenda programas, mas como ferramenta de apoio às pesquisas.'' Para ela, a máquina não dá possibilidade de interação e a escola prioriza atividades voltadas para o coletivo. ''Não há nada mais limitador do que aprender sozinho, sem espaço de socialização, sem troca.'' Paula diz que a escola ainda não definiu se deve manter laboratórios ou instalar computadores em algumas salas apenas para facilitar pesquisas, nunca para aulas de informática. A discussão parece não tem fim.


