De volta às câmeras
PUBLICAÇÃO
domingo, 05 de janeiro de 1997
Daniela Rocha Agência Folha 
Onze anos depois de trabalhar com um texto de Chico Buarque - com quem co-roteirizou a versão cinematográfica para a peça Ópera do Malandro -, o cineasta Ruy Guerra prepara novo trabalho baseado em outro texto de Chico, o romance Estorvo, que começa a ser filmado após o Carnaval. Foi uma grande coincidência- disse o cineasta, que adianta que a parceria com Chico vai render novas produções. Temos projeto para fazer mais um musical- contou. Só espero que a próxima coincidência leve menos que uma década para acontecer.
O filme Ópera do Malandro foi lançado no natal de 1986. Na segunda semana de janeiro de 1997, será relançado em vídeo, em cópia melhorada porque a anterior estava muito escura, segundo Guerra. Ele e Chico são parceiros em cinema, música e teatro. Nesta entrevista à Agência Folha, o cineasta comenta os filmes Ópera do Malandro e Estorvo e fala sobre o trabalho ao lado do amigo Chico.
Ópera do Malandro é um dos seus filmes preferidos?
Ruy Guerra - É um filme querido, talvez por um ato de inconsciência. Foi uma aventura fazer um musical. E o conhecimento técnico que possuíamos na época era nenhum. Ter conseguido fazer foi uma bênção dos deuses. Era para ser um fracasso total.
Hoje, quando revejo, me agrada. Sua proposta básica era subverter os
conceitos do musical tradicional americano utilizando a própria linguagem do cinema americano.
Na época você afirmou que a roteirização ao lado de Chico Buarque demorou três anos.
Ruy Guerra - Foi muito demorada. Todos os dias nos encontrávamos por volta das três da tarde e ficávamos até as oito da noite na casa do Chico. Quando não acontecia nada, ficávamos conversando, consultando dicionários. Em determinado momento tínhamos mais de 30 histórias diferentes.
Quem teve a idéia de roteirizar a peça para cinema?
Ruy Guerra -Foi uma questão de circunstância. O Marin Karmitz (da produtora francesa MK2) tinha visto Erêndira e me sugeriu fazer um musical. Um distribuidor propôs algo como a Ópera dos Três Vinténs brasileira. Eu disse que isso já existia, feito pelo Chico, para teatro. Fui ao telefone no bar, liguei para o Chico e pedi os direitos de Ópera do Malandro. E pronto, foi assim.
Por que Estorvo não teve roteiro em parceria?
Ruy Guerra - Senti vontade, mas achei que Chico poderia me dizer pouco além do que estava no livro. No Estorvo há uma estrutura cinematográfica que eu conservei.
Como está o projeto?
Ruy Guerra - Estou fazendo o levantamento das locações e começando a formular uma linguagem cinematográfica das sequências. Começo a filmar depois do Carnaval.
Como é o filme?
Ruy Guerra - É um filme que se passa em três planos, do real, do passado e do imaginário. Há uma complexidade da história que estou tratando graficamente. Não é um filme naturalista, realista.
Quando você leu Estorvo logo pensou em filmá-lo?
Ruy Guerra - O livro me seduziu muito. Eu sabia que daria um filme. O que me interessou mais foi a temática e a maneira como essa história está contada. É um personagem que está fugindo de tudo, de todos e dele mesmo. É um retrato bem traçado da modernidade hoje, numa megalópole.
Como isso é traduzido para cinema?
Ruy Guerra - O personagem fala, mas tem sempre a voz off. Também tem muita imagem e ação. Decidi usar a voz off por ela ser uma tradição dos policiais B, noir. Quero que o filme seja uma espécie de um thriller.
O elenco já foi definido?
Ruy Guerra - Como a produção será luso-brasileira, o elenco português está em aberto. Dos brasileiros, Guilherme Fontes (o personagem central), Aracy Balabanian, Luís Melo e Pedro Paulo Rangel são os nomes já definidos no elenco.
Quando será lançado?
Ruy Guerra - No final do ano.


