Dez anos depois, o trem voltará a atravessar o pantanal sul-matogrossense. A voz que popularizou o ícone da cultura pantaneira rememora e festeja. ''O trem resgata sonhos que não se sonham mais, é uma viagem inesquecível. Foi um crime parar o trem'', diz Almir Sater que, em 1982, eternizou ''Trem do Pantanal'' através da melodia e versos compostos por Paulo Simões e Geraldo Roca. Pois bem, o lendário meio de transporte ferroviário, desativado em 1995, deve reiniciar suas atividades no primeiro semestre de 2005, a princípio num trecho de aproximadamente 80 quilômetros entre Corumbá e Porto Esperança a etapa seguinte é chegar, o mais rápido possível, até Miranda. Não há previsão de quando o trajeto de 460 quilômetros, entre Campo Grande (capital do Mato Grosso do Sul) e Corumbá estará concluído.
A volta do Trem do Pantanal, ou Expresso Pantanal como foi rebatizado, terá finalidade exclusivamente turística. Cinco novos vagões estão prestes a deixar o pátio da Brasil Ferrovias, em Sorocaba (SP) rumo a Corumbá. A composição três carros de passageiros, um carro-varanda e outro destinado a bar e restaurante, todos climatizados e com poltronas reclináveis capazes de abrigar exatos 192 passageiros. ''Na minha opinião o retorno do trem é fantástico porque resgata a história e cultura do povo sul-mato-grossense'', analisa Leatrice Couto, diretora presidente da Agência de Gestão e Integração de Transportes do Mato Grosso do Sul (Agitrams).
Segundo ela, antes de levar adiante a empreitada, o governo do Mato Grosso do Sul solicitou um estudo sobre a viabilidade de colocar novamente o trem nos trilhos. Talvez o resultado mais importante tenha sido o fato de 98% da população sul-matogrossense ser favorável à reativação da linha. É que desde que começou suas atividades, o então Trem do Pantanal servia, em muitos casos, de meio de subsistência para os moradores das cidades por onde passava a composição. Vendia-se de tudo um pouco: frutas, peixes, sorvetes, bebidas e muitas chipas, uma espécie de pão de queijo. O trem, por mais mítico que seja, não primava, por exemplo, pelo bom serviço de bordo. Até hoje muitos comentam do prato principal servido: bife a cavalo acompanhado de... cerveja quente.
A concessão para o governo do Mato Grosso do Sul explorar o agora Expresso Pantanal foi autorizada em maio deste ano pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Ainda de acordo com Leatrice Couto, a operação ficará provalvelmente a cargo de agências de turismo através de licitação. A periodicidade de funcionamento vai depender da demanda de passageiros.
O trem pantaneiro linha Campo Grande/Corumbá começou a funcionar em 1941, mas no início dos anos 90 já dava sinais de pouco fôlego para continuar prosseguindo a viagem com passageiros. Os vagões estampavam os sinais dos tempos, bem como trilhos retorcidos e muitos dormentes danificados uma espécie de museu a céu aberto em que sucata, mato e descaso eram as atrações principais. O trem de cargas ainda resiste. Mesmo numa velocidade entediante (30km/h em média), transporta minério, ferro e manganês para o porto de Santos três vezes por semana.
A desativação da linha férrea de passageiros culminou com o processo de privatização da ferrovia que liga Bauru (São Paulo) a Corumbá, num percurso de pouco mais de 1,3 mil quilômetros, cuja administração fica a cargo da Brasil Ferrovias. O investimento total na recuperação da malha é de R$ 78 milhões, dos quais R$ 25 milhões serão destinados apenas ao trecho entre Campo Grande e Corumbá, fronteira com a Bolívia.
Entre essas duas cidades, há 32 estações (algumas já revitalizadas, como a de Miranda) e, vejam só, 542 curvas, o que perfaz uma média de uma a cada 856 metros. Nos áureos tempos, o trem levava pelo menos 10 horas para cruzar os dois pontos, numa velocidade de 50 km/h e chegou a ter dezenas de vagões. Enquanto funcionou, foi um meio de transporte imprescindível para a população ribeirinha e tornou-se sinônimo de aventura nos anos 60 e 70. O trem, como contam, foi também muito utilizado por pessoas perseguidas pela ditadura militar e que deixavam o Brasil pela fronteira com a Bolívia.
O Expresso Pantanal está prestes a entrar novamente em operação com o intuito de incrementar o ecoturismo da região. Nada mal apreciar o Pantanal, considerado a maior área alagável do planeta e declarado Reserva da Biosfera, em 2000, pela Unesco. O santuário ecológico abriga uma das mais ricas biodiversidades do planeta (quase 1,2 mil espécies de aves, peixes, mamíferos e répteis).
Como não se embevecer com essa maravilha de cenário? Ainda mais sobre os trilhos de um trem cantado em verso e prosa!
O jornalista viajou a convite da organizacão do Festival América do Sul, realizado em Corumbá

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