‘‘Por que dar tantas voltas, se você pode encontrar os Estados Unidos sem sair do Texas?’’ Esta resposta o dramaturgo e ator Sam Shepard deu ao diretor Wim Wenders em 1983, quando o cineasta alemão contou a Shepard sobre sua idéia que no ano seguinte se converteria no filme que fez de Wenders um dos realizadores mais decisivos daquele momento: ‘‘Paris, Texas’’.
  Aquela conversa, segundo recorda Wenders sempre que pode, nasceu quando ele convidou Shepard para escrever o roteiro para um filme ‘‘on the road’’, ou ‘‘de estrada’’, a estrada como símbolo de uma jornada de buscas. ‘‘Paris, Texas’’ é sobre isto, um protagonista que saía do Alaska com destino ao Texas, passando pelo Meio Oeste e Califórnia. O personagem, vivido por Harry Dean Stanton, corria atrás do prejuízo existencial representado por um filho que nunca viu e que afinal pretende encontrar.
  É a esta procura, geográfica e metaforicamente entranhada nos grandes espaços da América, que Wenders e Shepard estão agora de volta com ‘‘Estrela Solitária’’, que estréia hoje em Londrina (veja a programação de cinema na página 2). Com os olhos e a memória postos naquele ‘‘Paris, Texas’’ de duas décadas atrás e que conquistou Cannes, em ‘‘Estrela Solitária’’ voltam a transitar temas como o regresso, a reconciliação, o perdão e a redenção.
  O resultado desta retomada é sensivelmente inferior, bem menos convincente. Mas é aquilo mais ou menos óbvio: mais vale um Wenders de segunda do que qualquer produto hollywoodiano inflado de boas intenções e sustentado por um marketing desfuncional.
  No argumento roteirizado por Shepard, é ele mesmo quem faz o papel de Howard Spence, envelhecido astro de westerns, antigo ídolo amado por muitas mulheres e que teve uma vida cheia de relações agitadas e escândalos. Seu dia-a-dia transcorre entre bebidas, mulheres e o tédio de si mesmo. Na verdade é um solitário atrás das raízes e dos seres queridos. Um ser no limite.
  De repente se dá conta do enorme vazio. Em meio à rodagem do filme que poderia ser seu próprio epitáfio – ‘‘The Ghost of the Western’’ – ele abandona o set e sai em fuga a galope. Sua primeira parada é a casa da infância, e é lá que a mãe (Eva Marie Saint) lhe dá a inesperada notícia de um filho do qual nunca soube, um filho de sua antiga namorada, a agora rancorosa Doreen (Jessica Lange). A partir daí, como no recente ‘‘Flores Partidas’’ de Jim Jarmush, há um sentido concreto. A procura o leva até Butte, pequena cidade de Montana. E no seu encalço segue o estranho investigador (Tim Roth), contratado pela produção do filme.
  Ao contrário da precisão cirúrgica de ‘‘Paris Texas’’, este ‘‘Estrela Solitária’’ não está livre de clichês e de concessões, chegando às vezes muito próximo do risível. Isto causa certo desconcerto e até alguma decepção. No elenco o destaque é Jéssica Lange, sempre disposta a ir mais além do que pede o personagem. E o que ajuda muito a direção de Wenders é a trilha musical de T-Bone Burnett e Bono (evocativa daquela que Ry Cooder fez para ‘‘Paris, Texas’’) e as imagens poéticas de Franz Lustig, inspiradas na pintura de Edward Hopper, o cronista plástico da vida da América profunda.

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