Houve um tempo em que garçonetes que viravam cantoras eram mais divertidas. Mais precisamente na segunda metade da década de 1970, quando as Frenéticas viraram fenômeno nacional, amenizando a barra-pesada da ditadura militar com atitude debochada, irresistíveis canções em ritmo de disco music e convite ao prazer. Sem nostalgia, Sandra Pêra, que faz parte dessa história, conta tudo em ''As Tais Frenéticas - Eu Tenho Uma Louca Dentro de Mim''.
Bem, Dudu, Edir, Leiloca, Lidoka, Regina e Sandra não eram garçonetes profissionais, mas quebravam o galho na função, porque precisavam trabalhar ''para levar uma vida mais bacana''. Na verdade, elas eram ''das artes'', por isso quando o empresário Nelson Motta as convidou para carregarem bandejas na Frenetic Dancin Days Discothèque, elas quiseram fazer algo mais. E como fizeram.
A história foi repetida uma infinidade de vezes, tanto que elas até se irritavam de ter de repeti-la nas entrevistas. Mas isso era só o começo e Sandra entra em detalhes, narrando passagens com muito humor e texto fluente no livro, que é recheado com inúmeras fotos. A bordo desse trem da alegria, a atriz e cantora também traça sua biografia pessoal.
A partir de breves números musicais entre as mesas, cantando hits da jovem guarda e do rock, as tais Frenéticas passaram a lotar estádios, em ascensão fulminante. Já com o disco de estréia, de 1977, que abria com ''Perigosa'' (Rita Lee/Roberto de Carvalho/Nelson Motta), elas venderam 300 mil cópias. ''Acho que o sucesso deixa todos mais atraentes, bonitos, sedutores. Ou talvez o sucesso simplesmente seja a sedução'', reflete Sandra. ''O certo é que viramos uma espécie de loucura. Parecia que era só estalar os dedos, e qualquer um que desejássemos estaria aos nossos pés'', prossegue.
De maneira coloquial, Sandra narra vários episódios engraçados. Também revela memória prodigiosa ao lembrar de tantos detalhes, como os bastidores de vários shows, viagens ao exterior e histórias das principais canções que elas gravaram, seguidas das letras.
Mais três álbuns de sucesso -''Caia na Gandaia'' (1978), ''Soltas na Vida'' (1979) e ''Babando Lamartine'' (1980) - e uma sensação de fim próximo começou a se esboçar. Em 1981, uma bomba explodiu no estacionamento do Rio Centro, durante um show de 1º de Maio. Sandra lembra: ''Enquanto berrávamos que o trem da alegria promete, mete, mete, mete garante, ainda tentavam explodir, calar a música.'' Ela então já sentia as coisas ficarem estranhas. Mas o grupo se dissolveu sem grandes traumas. E teve até uma volta relâmpago em 2001, com metade da formação original e o CD ''Pra Salvar a Terra''. Alguns de seus sucessos, incluindo o mega-hit ''Dancin Days'' (Rubens Queiroz/Nelson Motta), lançado em 1978, foram regravados, ao lado de novas canções.
Passados 30 anos, não há quem resista ao chamado: ''Abra suas asas/ Solte suas feras/ Caia na gandaia/ Entre nesta festa''. Por mais exaustivamente repetida na noite e nas festas, é um tema curinga que enche qualquer pista. Não importa que idade tenha, quem ouve cai automaticamente ''na gandaia''. Foi por causa dessa música, tocada numa festa, aliás, que Sandra fez as pazes com Regina, depois de um mal-entendido. ''Cheguei por trás dela e a abracei, abracei e abracei, sempre no ritmo da música. Voltamos a falar e ponto (...) Acho que seremos eternamente 'as meninas'.''
SERVIÇO
- ''As Tais Frenéticas - Eu Tenho Uma Louca Dentro de Mim'' Editora - Ediouro
Preço - R$ 49

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