De volta aos anos lisérgicos
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 23 de agosto de 2000
Nelson Sato De Londrina 
A profusão de bandas que surgem a cada ano, gravam seu primeiro disco e somem na poeira do anonimato daria para inundar uma enciclopédia com verbetes. Mas algumas bandas, mesmo tendo circulado apenas nos porões alternativos, conseguem ser lembradas pelo público anos depois favorecendo reedições de seus trabalhos.
Foi o que ocorreu nesta temporada com as bandas Kafka e 3 Hombres, que tiveram seus respectivos álbuns Musika Nervosa/Obra dos Sonhos e De Volta ao Velho Oeste relançados em CD pelo selo Baratos Afins. Os discos saíram originalmente em vinil, os do Kafka em 1987 e 1989 e o do 3 Hombres em 1993.
Kafka traz canções nubladas influenciadas por bandas inglesas como Bauhaus e Echo and The Bunnymen, enquanto que o 3 Hombres titubeia ao apostar em variadas direções. Além delas, nomes como Mercenárias, Fellini e Smack também foram brindados nos últimos anos com recolocação de seus trabalhos no mercado, sempre sob a chancela da Baratos Afins.
O selo, contudo, não se limita a vasculhar o underground atrás de títulos esquecidos. Prova disso é que está lançando, no mesmo pacote, o disco de estréia do quarteto alagoano Mopho. O grupo, ao contrário do que se possa imaginar à primeira vista, escapa a qualquer vínculo com ritmos regionais. O mais curioso é que faz um som propositalmente retrô, assumindo suas influências (Mutantes, Arnaldo Baptista e Beatles) até em citações de letras.
A psicodelia respinga em cada uma das 13 faixas, nas quais cada detalhe da composição e de seu posterior registro em estúdio procurou privilegiar texturas e timbres sessentistas. A própria capa do CD remete à estética dos anos lisérgicos. João Paulo (guitarra e vocais), Júnior Bocão (baixo e vocais), Leonardo (teclados e vocais) e Hélio Pisca (bateria) surpreendem com bonitas linhas melódicas, harmonias vocais e ótimo instrumental.
Carlos Calanca, o dono da Baratos Afins, cuidou da produção, mixagem e masterização do material. A psicodelia bate as asas outra vez.


