João Caldas/DivulgaçãoPeça ‘‘é um texto de juventude que se transformou num documento’’ De volta a 1968. O grupo de Teatro da Universidade de São Paulo (TUSP) vai contar hoje na Mostra Regional/Nacional do Festival Internacional de Londrina (FILO) a história da ocupação do prédio da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e o choque entre estudantes, policiais e extrema direita naquele ano. O espetáculo ‘‘À Prova de Fogo’’ será apresentado às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde.
A ocupação teve um desfecho trágico: a morte de um estudante secundarista e a prisão de outros 80 alunos. A ação principia com um ultimato da polícia para que os estudantes desocupem a faculdade no prazo de três dias e termina no confronto da não-obediência dessa ordem.
O clima é de guerra. As discussões apaixonadas sempre levam a posições extremadas. Em meio a tudo isso, vão se revelando os conflitos interiores das personagens em choque com a urgência do momento e da história. ‘‘Vão brotando temas como virgindade, aborto, moral, família e religião...’’
O texto ‘‘À Prova de Fogo’’ foi o primeiro escrito por Consuelo de Castro, aos 22 anos, quando era aluna da Faculdade, que ficava na Rua Maria Antonia, em São Paulo. ‘‘Ela participava ativamente do movimento estudantil e, em 68, também estava no meio do protesto. Durante a ocupação, ela escreveu o texto’’, conta o diretor do espetáculo, Abílio Tavares. ‘‘É um texto de juventude que se transformou num documento. Hoje ele tem um valor documental daquele momento, das pessoas que viveram aquele período.’’ Abílio diz que o texto, escrito entre maio e junho, tem um aspecto premonitório. ‘‘Ele foi criado meses antes do grande conflito entre alunos da USP e os da Universidade Mackenzie. Na verdade, o texto antecipou o que viria a acontecer em outubro de 68. Foi o último momento de liberdade, de respiro’’, diz.
O espetáculo ‘‘À Prova de Fogo’’ marca também a retomada da produção teatral do TUSP, interrompida em 68. ‘‘Na época, o TUSP estava se preparando para montar a peça, mas o texto foi proibido’’, lembra. De lá para cá, muita coisa aconteceu: o prédio da Rua Maria Antonia foi incendiado e a faculdade foi expulsa do local. No início dos anos 90, a universidade retomou o prédio, onde hoje o TUSP está instalado junto com o Centro Universitário Maria Antonia.
Pertencentes a uma outra geração, os atores do TUSP vão se defrontar com uma história que não viveram. ‘‘E isso diferencia uma coisa no espetáculo’’, sugere o diretor. ‘‘Nesta montagem, tentei trabalhar sem utilizar a valoração, mas as diferenças entre as gerações.’’
O diretor Abílio Tavares explica que a maioria dos atores de ‘‘À Prova de Fogo’’ está fazendo teatro pela primeira vez na vida. ‘‘São pessoas de várias áreas da universidade e da comunidade em geral. Não é um grupo de escola de teatro. O processo começou com uma oficina de teatro universitário, envolvendo 300 pessoas, que resultou nesta montagem’’, observa Tavares. O espetáculo tem 1h30 de duração e envolve 24 atores. ‘‘À Prova de Fogo’’ faz parte de um projeto multidisciplinar do TUSP para 1998, que envolve também a próxima montagem do grupo.
• ‘‘À Prova de Fogo’’, com o grupo TUSP, de São Paulo. Hoje, às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde (Rua Maranhão, 85), em Londrina. Texto: Consuelo de Castro. Direção: Abílio Tavares. Assist. direção: Carolina Oliva. Iluminador: Luiz Valkazara. Sonoplasta: Rodrigo Cardoso. Produtora: Maria do Carmo Bottino. Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, idosos e funcionários da UEL têm 50% de desconto).

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