Zeca Corrêa Leite
De Curitiba
A TV Globo quer entrar no próximo milênio com uma novela que será uma superprodução. ‘‘Terra Nostra’’, escrita por Benedito Rui Barbosa e que estréia em meados de setembro, contará histórias de amor através de gerações, com Ana Paula Arósio e Thiago Lacerda encabeçando o elenco.
Durante os meses em que ficará no ar, a novela vai ter como abertura a música ‘‘Tormento D’Amore’’ interpretada por Agnaldo Rayol e Charlotte Church, menina de 13 anos, atual fenômeno na Inglaterra. A soprano mirim está às voltas com um novo disco, depois de vender mais de 2 milhões de cópias em seu país. ‘‘Ela é maravilhosa e já se apresentou para a família real’’, diz o cantor.
Em entrevista exclusiva à Folha2, Agnaldo Rayol comentou que este é um novo presente que ele recebe do novelista. O anterior foi a participação na trilha de ‘‘Rei do Gado’’ cantando ‘‘Gioconda’’, com Chrystian & Ralf.
Assim como a novela está tendo requintes de qualidade na sua produção, o mesmo aconteceu com ‘‘Tormento D’Amore’’. Rayol – que já gravou 45 LPs e CDs, sem contar os 78 rotações, compactos simples e duplos – viajou a Londres para gravar com Charlotte. A dupla teve como acompanhamento a mesma orquestra e maestro que fizeram a trilha sonora do filme ‘‘Titanic’’. ‘‘Tormento D’Amore’’, de Marcelo Barbosa, Luis Schiavon e Andó ‘‘é um diálogo que acontece entre dois apaixonados’’, explica Agnaldo.
Atualmente contratado pela Sony pelo prazo de dois anos, o cantor antevê novos tempos. Aproveitando a onda da novela, ele vai gravar um disco somente com clássicos italianos (como ‘‘Cori Ingrato’’), incluindo grandes sucessos dos anos 60 – entre elas ‘‘Io Che Non Vivo Senza Te’’, e possivelmente ‘‘Jesu Bambino’’, que Chico Buarque traduziu para ‘‘Minha História’’, no início dos 70 – e sucessos mais recentes.
‘‘São 12 músicas escolhidas a dedo para que meu público fique bem feliz e eu também’’, afirma o cantor. Enquanto se realizam os planos, outra boa notícia que chegou ao cantor foi a de que a abertura da novela vista no Brasil será a mesma para todos os países onde ela for apresentada.
É uma exigência que a TV Globo não costuma fazer, mas acabou fazendo com ‘‘Terra Nostra’’. Assim, Agnaldo será ouvido ao longo dos próximos anos nos mais diversos lugares do planeta.
‘‘Isso é uma coisa maravilhosa, estou muito feliz. É um grande presente que recebo mais uma vez do Benedito Rui Barbosa. Abertura de novela da TV Globo eu nunca havia feito. É a primeira vez que isso acontece numa carreira de 42 anos.’’
O público soube da boa nova através de uma nota na revista ‘‘Veja’’, onde o artista diz sentir-se como se fosse adolescente. ‘‘Eu sempre me sinto assim’’, reafirmou à Folha2. ‘‘Tenho 42 anos de carreira e 61 de idade. É como se eu estivesse no início da vida, começando uma carreira.’’
Para ele, com certeza esta é uma característica de todo artista. ‘‘Cada show é como se fosse uma estréia. É uma coisa muito boa a gente ter este tipo de oportunidade. É uma responsabilidade muito grande, mas também uma alegria, uma coisa que rejuvenesce a gente, ainda mais gravando com uma menina de 13 anos.’’
A nota reveladora foi publicada na seção ‘‘Gente’’. Porém, dentro do estilo corrosivo do redator, ela começa dizendo que nos últimos tempos Agnaldo Rayol ‘‘tem garantido a sobrevivência cantando a lacrimejante Ave Maria de Gounod em casamentos pelo Brasil afora. Shows, só em clubes modestos’’.
‘‘Não é verdade’’, comentou o artista. ‘‘Não canto só em clubes modestos. Canto para 60 pessoas como para 60 mil; elas me aplaudem, me prestigiam, gostam de mim e vão aos meus shows, independente se estou presente na mídia ou não.’’
‘‘Foi uma nota maldosa, uma coisa feita de maneira pejorativa. Eu não merecia isso porque fui solícito com eles; fiquei mais de uma hora dando entrevista ao repórter. Acho que nessas horas, em determinadas reportagens, as pessoas se esquecem da história do artista. Ou então são mal informadas, e não sabem o que aquele artista representa para um grande público do Brasil inteiro. E eu tenho certeza absoluta do público que possuo no País. Viajo muito e sou a maior testemunha disso.’’
A chateação do momento já passou. ‘‘O que interessa é que as coisas estão acontecendo, se renovando e eu estou aí, pronto para o que der e vier. Enfim, são coisas que acontecem. Não guardo ressentimento de ninguém. Para mim é passado e o que me interessa é o que está para vir.’’ Confira alguns trechos da entrevista:
Você teve uma consagração, entre outras, no Faustão.
Aliás, foi o pique de audiência do Faustão. Estive outro dia no programa do Ratinho, amigo particular de muitos anos, e uma vez estive numa sexta-feira santa. Foi a maior audiência do programa dele naquele momento. Quando entrei o programa já estava com audiência muito grande e subiu mais 5 pontos no Ibope. Para quem não sabe cada ponto representa 80 mil telespectadores em São Paulo. Tudo isso responde a muita coisa.
Quantos prêmios Sharp você recebeu nestes últimos anos?
Na verdade, este foi o primeiro Prêmio Sharp que recebi, como melhor disco de canção popular, o ‘‘Agnaldo Rayol’’, o mais recente da BMG. Foi onde gravei ‘‘Fascinação’’, ‘‘Alma’’, ‘‘Começaria Tudo Outra Vez’’. Cristóvão Bastos recebeu como melhor arranjador de canção popular com o meu disco e o José Milton como o melhor produtor de canção popular. Fiquei felicíssimo. Só fiquei triste porque este ano não houve a festa de entrega no Teatro Municipal. Pelo momento que o Brasil está passando, não pôde haver a entrega do prêmio no Teatro Municipal. Inclusive gravei um programa com o José Maurício Machline, que é o responsável pelo Prêmio Sharp. Gravei na casa dele o ‘‘Por Acaso’’.
De uns tempos para cá você tem gravado os nossos clássicos e tem tido uma receptividade grande...
Maravilhosa receptividade. Porque são músicas que não morrem. Então em toda leitura que se faça desses clássicos, sempre vai haver alguma coisa de interessante, alguma coisa nova, que cai bem no ouvido das pessoas. São músicas que vários cantores já gravaram – eu inclusive –, então são músicas com arranjos novos, bonitos, grandes maestros, uma produção muito caprichada. Evidentemente isso chega às novas gerações, inclusive. Quando gravei ‘‘Todo Sentimento’’, o primeiro para a BMG, a música é do Chico e Cristóvão Bastos, o Chico adorou a gravação. Fiquei muito feliz. É uma oportunidade de você levar para as pessoas novamente o que há de melhor na música popular brasileira. Porque infelizmente hoje a música popular brasileira está passando por um momento, na minha opinião, paradoxal. É um momento rico e um momento pobre. Tem tanta gente com coisas boas para oferecer e mostrar, e não tem chance, não tem oportunidade. Você regrava, porque se você grava música de um compositor novo, a gravadora não aceita. Mas se você não mostra, como é que vai conhecer? Tinha que haver novamente um tipo de trabalho como a Elis Regina fazia. A Elis pegava novos autores, gravava e transformava em sucesso e os autores em nomes consagrados. Foi assim com João Bosco, Ivan Lins e tantos outros. Está no momento da nossa música passar por nova fase, dar oportunidade para esse pessoal novo, que tem músicas boas para mostrar. Infelizmente isso é muito difícil.
Por quê?
Porque existe uma coisa chamada máquina – de mídia, de rádio, de gravadora, de um monte de coisas – que geralmente massacra os ouvintes com aquilo que as gravadoras impõem. Então aquilo vai, vende um milhão de discos, acaba e depois de um tempo ninguém se lembra mais. Não é como ‘‘A Noite do Meu Bem’’, da Dolores Duran, ‘‘Travessia’’, de Milton Nascimento, que todo mundo canta até hoje. São músicas que ficaram. Por isso é que cantores como eu, Cauby e Ângela Maria gravam e regravam músicas famosas com uma nova roupagem.
Em 1958 você gravou seu primeiro disco.
Ali tinha ‘‘Serenata do Adeus’’, que regravei com a Hebe, ‘‘As Praias Desertas’’, ‘‘Modinha’’, de Tom Jobim, ‘‘Luciana’’, do Vinícius e ‘‘Eu Não Existo Sem Voc꒒, da Dolores Duran.
Você pretende fazer um disco dessa gente...
Quem sabe? É uma idéia maravilhosa, porque são clássicos e grandes músicas que eu trazia no meu primeiro disco. Engraçado que só fui estourar em vendagem com bolerão (dá uma gargalhada) ‘‘Acorrentados’’. Já gravava Tom, Vinícius, Dolores e naquela época ninguém dava muita bola para eles.
Então você era bossanovista de primeira hora?
Também. Gravei inclusive músicas que se tornaram clássicos da música popular. A minha primeira gravação em 78 rpm foi ‘‘Se Todos Fossem Iguais a Vocês’’, que tinha sido gravada por Silvinha Telles, música que era da peça ‘‘Orfeu do Carnaval’’. Do outro lado, ‘‘Prece’’, de Vadico e Marino Pinto. A gente gravava coisas bonitas, músicas que até hoje as pessoas cantam e de alguma maneira elas estão no inconsciente coletivo.Agnaldo Rayol gravou a abertura de ‘‘Terra Nostra’’, próxima novela da Globo, com a soprano Charlotte Church, considerada um fenômeno na Inglaterra
Arquivo FolhaAgnaldo Rayol está preparando um disco de músicas italianas com sucessos como ‘‘Jesu Bambino’’ e ‘‘Io Che Non Vivo Senza Te’’Sebastião Moreira/Agência EstadoAna Paula Arósio vai protagonizar a novela da Globo que deve estrear no mês que vem

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