De volta ao passado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 23 de abril de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
''Eu gosto de quando as coisas estão bagunçadas. Isso me força a tentar achar uma saída. A dificuldade é sempre o melhor ponto de partida.'' A afirmação do músico Jack White, capturada pelas lentes do documentário ''A Todo Volume (It Might Get Loud), de 2008, resume como sua criatividade é exercitada: hoje considerado um dos melhores guitarristas do mundo, White amplifica sua musicalidade através do conflito. Suas guitarras, criadas e confeccionadas por ele mesmo - e batizadas com o nome de atrizes e ex-namoradas - não são suas melhores amigas; ao contrário, elas representam um deboche desafiador. White, muitas vezes, precisa arremessá-las contra a parede (literalmente) para trazer para a realidade o som distorcido que ele concebe dentro da sua própria cabeça. As guitarras são, ao mesmo tempo, suas musas, suas amantes e suas piores inimigas.
Na primeira experiência em um álbum solo, ''Blunderbuss'' - que estará disponível a partir de hoje no iTunes - White não foge da velha luta. Mesmo nas baladas mais calmas, as composições do músico ainda transitam entre sentimentos paradoxais, por sabores amargos e doces. Seja no primeiro single, ''Love Interruption'', com apenas violão e piano (''Eu preciso de amor / Para me rolar de lado gentilmente / Me enfiar uma faca / E contorcer tudo que existe'') como no divertido diálogo feminino-masculino da faixa ''Hip (Eponymous) Poor Boy'', White agora explora toda a sua potencialidade como músico.
Já era tempo. A sonoridade de Jack White dentro da sua banda original, o duo The White Stripes (junto com sua irmã Meg), sempre era limitada por uma tríade imaginária. A busca, assumida, era de fazer rock and roll com um minimalismo estético, sempre baseado no número três: os Stripes eram compostos de voz, guitarra e bateria, só vestiam vermelho, preto e branco e suas composições eram variações em cima de três tons. Com o passar dos anos, o desgaste foi inevitável, e os projetos paralelos eram a única forma do músico escapar da prisão criativa que ele havia - voluntariamente - construído.
Depois de fundar e gravar dois ótimos discos com as bandas The Raconteurs (2008 e 2010) e The Dead Weather (2010 e 2011), Jack já assumia uma mudança de perspectiva musical. ''Os novos projetos do White Stripes não vão mais ser como antes'', assumiu, em entrevista para a Rolling Stone no final de 2010. Antes mesmo de concluir o trabalho, o White Stripes encerrou suas atividades ano passado, devido a uma crise nervosa de Meg White.
Sem restrições estéticas, o novo grande desafio de White era o de conseguir trabalhar com possibilidades musicais infinitas e, em ''Blunderbuss'', ele faz exatamente isso, trabalhando com rock e R&B que remetem às raízes dos gêneros como Chuck Berry, Elvis Presley, Beatles, Rolling Stones, Son House e Muddy Waters. Jack White consegue deixar sua marca aumentando as guitarras e reforçando a influência da bateria, do baixo, do piano e dos sintetizadores em suas canções.
Se a batida de ''Sixteen Saltines'' já te deixa com a orelha em pé, ''Weep Themselves to Sleep'' é uma das melhores experimentações musicais já feitas por White; um piano alucinado e um solo 'quântico' de guitarra transformam a faixa em algo imprevisível, complexo e furioso. Com ''Blunderbuss'', Jack White prova que é, para a música, o que Quentin Tarantino é para o cinema: um gênio, que consegue condensar influências e criar, a partir de referências de mestres do passado, um produto que transborda originalidade.
Para debutar sua nova apresentação ao vivo, White sobe ao palco em Nova York na sexta-feira (27), com um show que será transmitido, ao vivo, para todo o mundo. A apresentação faz parte da série American Express Unstaged (que já teve apresentações de bandas como Coldplay e Arcade Fire), e será dirigida pelo ator/cineasta Gary Oldman, fã assumido do músico.
Serviço:
- ''Blunderbuss'' de Jack White - Transmissão ao vivo na sexta-feira (27), a partir das 22h, no canal oficial do YouTube


