Resvalou e resvalou de acordo. Fafá de Belém admite que a maior parte de sua discografia beijou na boca – na frente de todo o mundo – do popularesco. Garante ela, apesar dos pesares, não ter perdido noites de sono nem carregar remorsos por ter emprestado sua (bela) voz a canções de deixar uns e outros sem saber onde enfiar a cara. No início, cantava compositores consagrados. Depois que gravou o Hino Nacional, a coisa descambou pra valer. Por que tamanha judiação?
Contextualizemos. A cantora de peitos e gargalhadas fartas, a partir de 85, resolveu embalar corações suburbanos. E nesse universo não caberiam mais, por exemplo, Chico Buarque ou Gonzaguinha. Estaria cantando em grego para um público que acha lindo, lindo rimar coração com emoção. Michael Sullivan, Zezé di Camargo ou José Augusto seriam mais apropriados à voz da nova Fafá de Belém. De vez em quando, gravava algo mais sofisticado, mas a sede de ser popular(esca) era insaciável.
Maria de Fátima, enfim, deixava aos zeladores da MPB de respeito discos belíssimos como ‘‘Água’’ (de 77, que José Ramos Tinhorão até deu uns palpites positivos) ou ‘‘Essencial’’ (de 82, feito com César Camargo Mariano). Na nova empreitada, essa cantora de ‘‘perfil popular’’, como faz questão de ressaltar, ganhou as rádios, foi a suspeitos programas de auditórios, pintou e bordou. Ah, sim, a palavra ‘‘oportunista’’ passou quase a ser um sobrenome artístico. ‘‘Eu tenho um público que gosta de mim independente do que eu estiver cantando. O personagem Fafá de Belém é muito mais forte do que qualquer gênero de música’’, acredita ela. Então, tá!
Tornou-se uma grande vendedora de disco. Gravou até um disco de fados. Que, bateu forte nos corações lusitanos. Em 97, em terras portuguesas, sentiu o apreço dos portugueses graças à música ‘‘Vermelho’’ – que virou uma espécie de hino do Benfica, um dos maiores time de futebol do país. Hoje passa mais tempo por lá do que no Brasil. ‘‘A música brasileira entra com muita tranquilidade por lᒒ, afirma com conhecimento de causa.
Pois muito que bem, Fafá de Belém, uma das mais conhecidas cantoras brasileiras, está completando 25 anos de carreira. E está preparando um disco – o 19º. Que pode (pode, vamos frisar) ser o disco com o qual deverá fazer as pazes (momentâneas?) com um repertório mais sofisticado. Maiores detalhes não são revelados.
Duas regravações: ‘‘Sob Medida’’, de Chico Buarque, e ‘‘Foi Assim’’ (Paulo André-Ruy Barata) dois de seus grandes sucessos quando era, digamos, uma cantora chique. Grifes importantes estão no disco, que deve sair em setembro ou outubro. Como Dori Caymmi e Chiquinho de Moraes, dois dos arranjadores escolhidos. A produção será de José Milton. ‘‘Eu só posso dizer que será um disco à altura de uma grande dama da canção brasileira’’, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista que a cantora concedeu em Salvador, durante sua participação no Panorama Percussivo Mundial (Percpan).
Você está preparando um CD alusivo aos 25 anos de carreira. Será um disco com o perfil popularzão ou será algo mais sofisticado?
Eu não posso abrir muito mão do popular... Eu acho, eu concordo que em determinados momentos fui popular até demais. Eu quase resvalei no popularesco mesmo. Mas havia verdade nisso porque eu nunca fiz nada que me obrigassem ou me forçassem. Esse novo trabalho eu optei por fazer um disco com grandes canções. É surpresa, mas posso dizer que será um CD que vai surpreender a todos positivamente.
Ser uma cantora popular, como é o seu caso, não significa ter a obrigação de vender muito disco, tocar muito em rádio...
(Interrompendo) Mas eu sou uma cantora de rádio. Eu tenho um público que gosta de mim independente do que eu estiver cantando. Isso é muito doido. É que as pessoas se identificam com o personagem Fafá de Belém que é muito mais forte do que qualquer gênero de música. Quanto a ser popular, hoje o que acontece no Brasil é que algumas pessoas fazem sucesso programado através de um jabá que se dá aos DJs. Isso é um absurdo total! Com R$ 40 mil você faz sucesso no rádio. Ou seja, a rádio massifica, massifica e depois cospe fora.
Você correu esse risco de ser cuspida para fora, né?
(Gargalhada) Mas nunca paguei jabá a ninguém.
Mas que correu esse risco, correu!
Não porque eu circulo muito bem. Tem mais: o sucesso não me seduz...
O que te chamaram de oportunista hein, Fafá?
Ah, mas o que eu posso fazer... Eu sou uma pessoa diferente. Não me preocupo muito com os rótulos. São rótulos... Na verdade, eu nunca quis ser cantora. Acho a vida de cantora muito chata, chatíssima. Eu gosto mesmo é de cantar, ou seja, eu me sinto mais um músico do que cantora... Essa coisa de diva, de ficar isolada eu não gosto.
Você tem um perfil popular, mas ainda mantém um certo prestígio pela sua voz. Ou seja, é brega, como se diz, mas tem uma arma poderosa que é a voz.
É verdade. É que eu sempre tive cuidado de chamar bons arranjadores e bons músicos para trabalhar comigo.
Agora, você não sente falta de gravar Milton, Caetano, Chico, Gil, Joyce, Ivan Lins, compositores sempre constantes em seus primeiros discos?
Se tivessem me mandado alguma coisa eu teria gravado...
Mas porque esses compositores enviariam canções para a Fafá de Belém que se tornou popularzona demais?
(Séria) Não existe isso!! Minha relação com a música sempre foi de liberdade.
Que espaço você acha que conquistou na MPB nesses anos todos?
Eu sou um personagem que entra e e sai de qualquer lugar com total facilidade. Um personagem que não tem nenhum tipo de preconceito.
Posso falar uma coisa? Volta Fafá, volta a gravar bons discos...
(Farta gargalhada) Não dá para programar isso... Mas eu não preciso chamar essa ou aquela pessoa para reconquistar um espaço... As coisas para mim sempre aconteceram com muita tranquilidade, sem marketing, essas coisas.
Ao que parece Portugal te aceita melhor atualmente que o Brasil?
Não sei se é assim como você fala... Deus é muito doido né, cara? Por isso, você tem que estar pronto para perceber quando há uma janela aberta e essa janela estava lá em Portugal. Em 97, meu pai havia morrido e eu estava muito mal, muito mal. Eu pensei que iria pirar de dor... Pois bem, desci no aeroporto de Portela e, passando perto do Estádio da Luz, um estádio de futebol, vi e ouvi torcedores do Benfica com bandeiras vermelha cantando ‘‘Vermelho’’. As pessoas estavam com bandeiras vermelhas do Benfica, cantando ‘‘Vermelho’’. Foi muito emocionante. Fui renascer em Portugal...
Quer dizer: não se pode dar as costas a quem te abre os braços, né?
É. E eu cheguei lá para fazer apenas um espetáculo. Acabei fazendo 15 e eu fui ficando por lá, ajeitando meu coração por lá. Eu vinha para o Brasil trabalhar mas voltava.
Agora é Fafá de Belém ou Fafá de Lisboa?
Fafá de Belém sempre.
Mudando de assunto: atiraram muitas pedras quando você se envolveu na campanha das Diretas-Já?
Muitas pessoas foram maldosas comigo. Ganhei pecha de oportunista, de carreirista, manipuladora. E eu era apenas uma menina que acreditava naquilo. Nasci em berço político, a discussão política sempre fez parte de minha vida. Não estava sendo incoerente.
Por falar em incoerência, o Fernando Henrique Cardoso, que também estava com você nas Diretas, mudou bastante, não? Hoje ele é presidente...
O Fernando como presidente é uma decepção muito grande. Ele se perdeu. Pessoalmente aindo gosto dele, mas como presidente... O Brasil hoje vive uma crise moral muito grande. O povo brasileiro é fabuloso, mas as elites não querem saber disso. Não se respeitam os velhos, crianças, enfim, o homem que trabalha é desrespeitado. Você paga impostos mas não tem segurança, não tem saúde. Não há um cuidado com o brasileiro comum.
Se você fosse escolher, quem você acha que seria um bom presidente para o Brasil?.
Hoje não sei...
E outrora?
Há tempos atrás tivemos grandes homens com possibilidades de poder. Roberto Freire, por exemplo, porque ele pegaria a esquerda com maturidade e faria as alianças necessárias. Gosto do Jaime Lerner, eu o acho um homem muito interessante que tem um foco legal do mundo. E é um grande administrador.
Para finalizar, estava reparando numa coisa: você mexe com os homens e as mulheres não param de te medir de cima em baixo. A imagem sexy ainda se mantém firme e forte, não?
(Gargalhando) Graças a Deus!
Não é engraçado para você ver a mulherada hoje em dia colocar baldes de silicone para ficar com peito grande? Neste quesito você sempre esteve na moda, não?
(Forte gargalhada) Pois é, demoraram mas descobriram que o estilo Fafá sempre foi o melhor. O melhor e o mais confortável.

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