DE VOLTA AO PASSADO
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Em plena época de reprodução excessiva da música como produto, poucos se preocupam com os primórdios da indústria fonográfica brasileira. A distância entre o que é gravado e os primeiros registros no País foi acirrada com o desconhecimento, na atualidade, da importância de ritmos como a modinha, o tango brasileiro, o maxixe, a marcha e a cançoneta.
Acostumada a uma carreira pouco linear, a cantora Maricenne Costa teve uma ótima idéia: resolveu interpretar as primeiras músicas gravadas com ritmos representativos brasileiros. O resultado está sendo lançado pelo CPC-Umes com a participação de Izaías e Seus Chorões, além de uma série de convidados no disco Como tem Passado!!.
A pesquisa ganhou respaldo de José Ramos Tinhorão, um dos estudiosos mais reconhecidos da música brasileira. Após consultar várias fontes, Tinhorão apresentou um repertório com 12 gravações. O trabalho remonta às jurássicas gravações em cera, de formato cilíndrico, até o disco, que profissionalizou o processo.
A modinha, por exemplo, existe desde o século 18, mas só foi gravada no século 20. Tudo isso me obrigou a uma pesquisa, fui atrás de minhas fontes, e forneci a Maricenne uma fita com as gravações. Ela passou para os músicos e tentou se aproximar o máximo possível do original, comenta José Ramos Tinhorão.
Mesmo buscando arranjos e sonoridades de origem, Maricenne Costa imprimiu uma interpretação personalizada, consequência de uma longa carreira marcada pela diversidade. Cuidadosa, Maricenne evitou exageros e, principalmente, a fórmula fácil de adotar novas roupagens para agradar aos parâmetros atuais.
Eu tinha feito um disco anterior, chamado Correntes Alternadas, em que misturei vários ritmos, com os sons de todos esses anos de carreira, que não tinha unidade, mas trazia a coerência de minha vida pessoal. Neste disco eu gravei uma música de 1925. Aí fui até o Museu da Imagem e do Som para propor uma apresentação e vi que eu estava em 1992 fazia 90 anos da primeira música gravada no Brasil, explica Maricenne Costa. A cantora entrou em contato com Tinhorão, que preparou o levantamento. São vários ritmos diferentes, mas na soma ficou um disco coerente, acrescenta Maricenne.
A cantora traz para a atualidade o comportamento musical da época com qualidade digital. Pode ser uma referência para se conhecer melhor o início do processo de gravação no Brasil, principalmente porque essas músicas, históricas, raramente são lembradas com poucas exceções.
O encarte traz textos explicativos sobre cada faixa, além de uma análise das primeiras gravações brasileiras feitas por José Ramos Tinhorão. O acompanhamento, do grupo de Izaías, obedece os costumes da época, quando o choro era também uma forma de interpretar outros gêneros.
O esforço foi muito criativo. O disco é bom no contexto geral, pelo menos pela iniciativa já tem uma virtude. Ela fez algo diferente, eu nunca tinha pensado nisso, argumenta Tinhorão. Mas, segundo o pesquisador, não se pode esperar muita repercussão: Nada vai repercutir na música atual porque ela é um produto como o sabonete. Esse disco vale como contracultura, enquanto a cultura de massa se comporta como uma indústria. Portanto, a possibilidade de criação alternativa fica na mão de pessoas como a Maricenne, e não irá para uma parada de sucesso.
A cantora reforça a tendência não comercial de seu trabalho, ressaltando características próprias: Eu sou uma cantora que sempre fiz o que quis. Eu não canto pelo poder ou para ser famosa, tenho outros valores na minha relação com a música. O meu desenvolvimento como cantora ficou diferenciado, eu criei um tipo de interpretação pessoal.
O mergulho no tempo proporcionado por Maricenne apresenta soluções melódicas e rítmicas que ainda hoje são interessantes. Isto É bom, primeira música gravada no Brasil, em 1902, pode ser ouvida com tranquilidade 98 anos depois. Algumas faixas até apresentam rugas, mas não carregam a sina descartável imposta pela indústria fonográfica de hoje.
Quem é Maricenne Costa
Maricenne começou cantando em corais e casamentos. Com grande extensão vocal, ela venceu o concurso A Voz de Ouro da ABC emissora brasileira extinta em 1958. Posteriormente, Maricenne comandou programas televisivos, trabalhou no teatro e se apresentou nos Estados Unidos. Vinculada à Bossa Nova, a cantora paulista desenvolveu projetos com Paulo e Arrigo Barnabé, cantou com o grupo punk Inocentes e roubou elogios de Tonny Bennet. Não tive gravadora e não fiz um sucesso estrondoso. Também não fiquei contratada, tendo que seguir um estilo básico. De 1970 para cá, parti para o aprendizado e busquei várias experiências, comenta.
Quem são os músicos
Maricenne Costa convidou o grupo veterano Izaías e seus Chorões, composto por Izaías Bueno de Almeida no bandolim, Israel Bueno de Almeida no violão, Clodoaldo Coelho da Silva no pandeiro, Dorival Malavaze no cavaquinho e Joãozinho do Cavaquinho. Este grupo já acompanhou, na década de 70, Elizeth Cardoso, Altamiro Carrilho, Paulinho da Viola, Silvio Caldas e Nelson Gonçalves. O CD traz participação especial de Cézar do Acordeon o acordeonista mais procurado pelo selo CPC-Umes instrumentista e arranjador; do clarinetista Jotagê e da percussionista Marize Barbosa. O veterano Sabá, contrabaixista do Jongo Trio, também marca presença em uma faixa. Outra convidada é Ana Eliza Colomar, que toca flauta e cello. No piano aparece Dudah Lopes. A pesquisadora Gisela Nogueira, que tirou a viola de arame dos museus e a trouxe para o século 20, toca o instrumento em Tristezas do Jeca. O coro ficou com Vera Veríssimo, Luiz Bastos, Claudia Yung e Murilo Lobo.
Quem é José Ramos Tinhorão
Jornalista, musicólogo, advogado e crítico nascido em Santos, José Ramos Tinhorão fez o levantamento que resultou no repertório do disco. É autor de Pequena História da Música Popular Da Modinha à Canção de Protesto (1975), A Música Popular no Romance Brasileiro (1992), As Origens da Canção Urbana (1997), e mais de uma dezena de títulos na área. Foi colaborador da primeira edição da Enciclopédia da Música Brasileira.
O disco faixa a faixa
Isto É Bom, de Xisto Bahia. Primeira composição brasileira gravada no País, em 1902. É um lundu, ritmo de origem negra marcado por atabaques e palmas.
As Laranjas de Sabina, de Arthur e Aluízio de Azevedo. É o primeiro tango brasileiro gravado e narra a história de uma vendedora de laranjas que tinha a banca frequentada por estudantes. As sobras das laranjas eram jogadas no coche do Imperador.
Perdão Emília (Anônimo). Primeira modinha gravada no Brasil, em 1902. As modinhas traziam influências da valsa e eram tocadas por grupos de choro.
Não Empurre (Autor desconhecido). Primeira cançoneta gravada. O registro original é de 1902. O estilo tinha influência do vaudeville francês, era apresentado em palcos e continha malícia associada a trechos falados.
A Bicharada (Autor desconhecido). Primeira marcha gravada no País, entre 1908 e 1909, e fala sobre o jogo do bicho.
São Paulo Futuro, de Marcelo Tupinambá. Primeiro maxixe gravado. O registro original é de 1917 e a música foi aproveitada por Darius Milhaud em uma obra de 1922.
Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida. Primeiro samba gravado. O ano da gravação é 1917 alguns estudiosos contestam o fato e a autoria.
Meiga-flor, de Henrique Vogeler e Freire Jr. Primeiro samba-canção gravado. O registro original foi feito por Francisco Alves em 1929, e a música também ficou conhecida como Ai Iô Iô.
A Espingarda, de José Calazans, o Jararaca. Primeira embolada ou carretilha gravada. Ritmo tipicamente nordestino, a embolada é característica dos estados da Paraíba, Pernambuco e Alagoas. O ano da gravação original é 1920.
Ai Amor, de Freire Jr. Primeira marchinha carnavalesca gravada. O registro original é de 1921.
Tristeza do Jeca, de Angelino de Oliveira. Primeira toada paulista gravada. O registro original é de 1926.
O Forrobodó (Não se Impressione), de Chiquinha Gonzaga. Primeiro maxixe gravado. Ao contrário do que ocorreu com São Paulo Futuro, que trazia no disco original o gênero corretamente destacado, O Forrobodó foi gravado entre 1912 e 1915 como tango. Só posteriormente foi reconhecido como maxixe.
Fonte: encarte do CD Como Tem Passado!!





