Antônio Mariano Júnior
De Londrina
Dos grandes da MPB, só estava faltando o ‘‘ao vivo’’ dele. E vem num momento redondo – aos 25 anos de carreira. É ou não é um bom pretexto para Djavan pôr na roda seu primeiro disco ao vivo? Ao vivo e duplo, repletinho com 22 músicas (a maioria marcante, de fato) que resumem, em pouco mais de 110 minutos, sua trajetória artística. Desse tempo de duração, é preciso descontar quase 11 minutos porque ‘‘Acelerou’’ e ‘‘Um Amor Puro’’ são faixas inéditas e registradas em estúdio.
As bodas de prata fonográfica de um dos mais preciosos cantores e compositores – notável pela musicalidade rica e letras sensívels, pelo menos nos bons tempos – bem que mereciam ser comemoradas em melhor estilo. Ah, sei lá, reunir os maiores hits e um punhado de fãs cantanto juntos é muito pouco para um cara como Djavan. Mas se é assim que ele o dono da festa quer, assim será.
Força ‘‘Djavan ao Vivo, Volumes 1 e 2’’ tem por trazer belas canções do passado, algumas redesenhadas. Para fãs, o disco é uma coletânea válida. Para a Sony, a gravadora, trata-se de um produto redondinho e apto a abocanhar o Grammy na categoria ‘‘World Music’’. Para a discografia de Djavan, o CD traz pouquíssimos acréscimos. É bom para todos?
Bem, para todos os efeitos é melhor ouvir o 14º disco de Djavan com respeito. Afinal não se trata de nenhum aventureiro cantador de linhas com notas ajuntadas que oferta acúçar às rádios e TVs necessitadas da ‘‘vital’’ glicose para sobreviver comercialmente. Agora, o fato de ser um dos melhores construtores de frases melódicas e literárias da música popular brasileira não o isenta de questionamentos.
É que as mais recentes produções – e o disco anterior, ‘‘O Bicho Solto’’ é um bom exemplo – mais parecem variação sobre o mesmo tema. Se as músicas de Djavan ainda são ricas e intrincadas, as letras estão caindo cada vez mais na simplicidade franciscana, sem maiores lampejos ou insight poéticos. Estaria ele em fase de total desinspiração e daí a explicação para gravar um disco com apenas duas canções inéditas? Talvez.
‘‘Acelerou’’ tem lá seus encantos, é funkeada e coisa e tal. Agora, ‘‘Um Amor Puro’’ força um pouco a amizade. Tivesse dado para um pagodeiro de plantão musicá-la, talvez a letra fosse melhor envolvida. Um pedacinho da pepita: ‘‘Se nós estivermos juntos/ Haverá um céu azul/ Um amor puro/ Não sabe a força que tem/ Meu amor eu juro/ Ser teu e de mais ninguém.’’
Ah, me poupe!! No mais, o cantor e compositor resumiu sua carreira se esquecendo do passado. ‘‘Samurai’’ abre o disco, como se a coisa toda – a dele – tivesse começado em 82. De fato, foi essa música que o atirou às paradas do sucesso, deu-lhe prestígio, disco de ouro e o projetou ao exterior. A coisa começou bem antes.
De fato, no disco há ‘‘Fato Consumado’’, ‘‘Serrado’’ e ‘‘Flor de Lis’’ (oh, Deus, saturou) sem contar ‘‘Meu Bem Querer’’ (que está perdendo seu encanto). Entretanto, tais canções não representam com muita firmeza a riqueza da fase ‘‘brasilianista’’, aquela da época de violão e alumbramento, de fulôs, de mornas de endoidecer, de índio cara pálida, das singelezas nordestinas então por ele apregoadas.
‘‘Djavan ao Vivo, Volume 1 e 2’’ , no todo, entretenimento puro. É desses discos feitos para se deixar tocar a qualquer momento do dia, da festa, na rua, na chuva ou na fazenda, que seja. Qualquer um, fã incondicional ou não, há de cantarolar essa ou aquela faixa. Se bem que o público faz as vezes de coral em muitas faixas.
É bom rememorar ‘‘Azul’’. É bom deixar ‘‘Esquinas’’ doer. É uma delícia verificar que a carga dramática de ‘‘Álibi’’ foi mantida. É prazeroso ouvir público e Djavan cantando a bela ‘‘Se...’’. Por outro lado, é duro ouvir a reconstrução de ‘‘Seduzir’’, outrora sincopada e agora retilínea.
E, por fim, é de latejar pôr os ouvidos em ‘‘Sina’’ executada trivialmente, em compasso binário, como fazem músicos de bar no auge do calor e da animação etílica de seu público. Negócio é o seguinte: ‘‘Djavan ao Vivo’’ pode não ser um disco obrigatório na prateleira de quem acompanha a carreira do cantor e compositor alagoano. Na dúvida, compre. Se não agora, pelo menos perto do Natal. Eis um presente redondinho e ideal para dar ao amigo secreto da firma.

Acelerou
(Djavan)
Ando tão perdido em meus pensamentos
Longe já sem vão os meus dias de paz
Hoje como a lua clara brilhando
Vejo que o que sinto por ti é mais
Quando te vi
Aquilo era quase o amor
Você me acelerou, acelerou
Me deixou desigual
Chegou pra mim
Me deu um daqueles sinais
Depois desacelerou
E eu fiquei muito mais
Sempre esperarei por ti
Chegue quando
Sonho em teus braços
Dormir, descansar
Venha e a vida pra você será boa
Cedo, que é pra gente se amar e mais
Muito mais perdido
Quase um cara vencido
Á mercê de amigo
Ou coisa que o valha
Você me enlouquece
’inda me aparecesse
De minissaia
Sério, o que eu vou fazer, eu te amo
Nada do que é você em mim se desfaz
Mesmo sem saber o teu sobrenome
Creio que te amar é pra sempre e mais

Relação das músicas
de ‘‘Djavan ao Vivo’’
- Samurai
- Azul
- Meu Bem-querer
- Nem Um Dia
- Álibi
- Cigano
- Serrado
- Oceano
- Açaí
- Fato Consumado
- Flor de lis
- Amar é Tudo
-Faltando um Pedaço
- Esquinas
- Eu te Devoro
- Seduzir
- Se...
- A Carta
- Boa Noite
- Sina
- Pétala
- Lilás
- Acelerou (inédita)
-Um Amor Puro (inédita)

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